Texto VI
O bife e o vinho compartilham a mitologia sanguínea. É o
coração da carne, e qualquer um que a consuma assimila a força
do touro. Obviamente, o prestígio do bife deve-se ao seu estado
de semicrueza: nele o sangue é simultaneamente visível, denso,
compacto e suscetível de ser cortado: imagina-se logo a ambrosia
antiga sob a forma de uma matéria pesada que diminui entre os
dentes, de modo a fazer com que se sinta ao mesmo tempo a sua
força de origem e a sua plasticidade se expandirem no próprio
sangue do homem.
E assim como o vinho se transforma, para um bom
número de intelectuais, em substância mediúnica que os conduz à
força original da natureza, do mesmo modo o bife é para eles um
alimento de redenção, graças ao qual tornam o seu cerebralismo
mais prosaico e conjuram, pelo sangue e a polpa mole, a secura
estéril de que são acusados.
Tal como o vinho, na França, o bife é um elemento
básico, mais nacionalizado do que socializado, estando presente
em todos os cenários da vida alimentar; participa de todos os
ritmos, desde a confortável refeição burguesa ao lanche boêmio
do celibatário; é uma alimentação simultaneamente rápida e
densa, que realiza a mais perfeita união entre a economia e a
eficácia, a mitologia e a plasticidade do seu consumo. Além de
tudo isso, é um produto eminentemente francês (é certo que se
encontra circunscrito, hoje em dia, pela invasão dos steaks
americanos). Sendo nacional, depende da cotação dos valores
patrióticos: revigora-os em tempo de guerra, sendo a própria
carne do combatente francês, o bem inalienável que só pode
passar-se para o inimigo à traição. Associado geralmente às
batatas fritas, o bife transmite-lhes o seu renome: elas são
nostálgicas e patrióticas como o bife.
Roland Barthes. O bife com batatas fritas. In: Mitologias. 2010, p.79-80 (com adaptações).