Nas últimas semanas, comecei a estranhar a incidência de
palavras como sofrência, refrescância e picância no vocabulário
das pessoas. Referiam-se respectivamente a sofrimento, refresco
e picante. Não que estivessem erradas.
O fato é que palavras antes nunca usadas estão entrando
no nosso dia a dia como se não pudéssemos mais passar sem elas.
Quem terá sido o primeiro a falar esta ou aquela? Como elas se
propagaram? Ninguém estranhou ao ouvi-las? Ou fez de conta
que sabia do que se tratava? Eis algumas: bichectomia,
cleptocracia, criptoassalto, despolarização, ecocídio,
economocrata, hipergamia, hipomania, homoeomorfo, jogoteca,
labioplastia, ludopatia, microagulhamento, microfocagem,
nepobaby, ninfoplastia, pornotortura, probiótico, reflexologia,
reformômetro, subótimo, supramáximo, tiktokização, tocofobia...
Colhi todas essas palavras nos jornais dos últimos 30 dias,
em textos que não se deram ao trabalho de defini-las. Note bem,
todas são plausíveis, têm formação perfeita, e basta conhecer seus
componentes para captar seu significado. Mas que são
esdrúxulas, são.
Confesso que boiei em algumas palavras e, ao ir ao
dicionário, me surpreendi. Aliás, é o que lhe acontecerá se você
for buscar o significado de, digamos, bichectomia, homoeomorfo
ou ninfoplastia. Mas quero ver se algum deles nos dirá a
definição de aruspicatório, carboxiterapia, criolipólise,
fotoblastia, incretinomimético, mastócito, melasmítico,
microbiota, lipocavitação, orofacial, picossegundo, tecarterapia e
tranexâmico.
Ruy Castro. Bichectomia, homoeomorfo e ninfoplastia.
Internet: <folha.uol.com.br> (com adaptações).
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