Por que estimam os homens o ouro e a prata, mais que os
outros metais? Porque têm alguma coisa de luz. Por que estimam
os diamantes e as pedras preciosas mais que as outras pedras?
Porque têm alguma coisa de luz. Por que estimam mais as sedas
que as lãs? Porque têm alguma coisa de luz. Pela luz avaliam os
homens a estimação das coisas, e avaliam bem, porque, quanto
mais têm de luz, mais têm de perfeição. Vede o que notou
Santo Tomás: neste mundo visível, umas coisas são imperfeitas,
outras perfeitas, outras perfeitíssimas. E nota ele, com sutileza e
advertência angélica, que as perfeitíssimas têm luz e dão luz; as
perfeitas não têm luz, mas recebem luz; as imperfeitas nem têm
luz, nem a recebem. Os planetas, as estrelas e o elemento do
fogo, que são criaturas sublimes e perfeitíssimas, têm luz e dão
luz; o elemento do ar e o da água, que são criaturas diáfanas e
perfeitas, não têm luz, mas recebem luz; a terra e todos os corpos
terrestres, que são criaturas imperfeitas e grosseiras, nem têm luz,
nem recebem luz, antes a rebatem e deitam de si. Ora, não
sejamos terrestres, já que Deus nos deu uma alma celestial;
recebamos a luz, amemos a luz, busquemos a luz e conheçamos
que nem temos, nem podemos, nem Deus nos pode dar bem
nenhum que seja verdadeiro bem, sem luz.
Padre Antônio Vieira. Sermão do nascimento da Virgem Maria.
In: Sermões. Erechim: Edelbra, 1998.
Internet:<literaturabrasileira.ufsc.br> (com adaptações).