A alocação de recursos públicos em saúde é uma questão que trata dos recursos escassos. Ao compreender que os
medicamentos são recursos escassos, a ideia de essencialidade dos medicamentos emerge como forma de considerar o uso
racional deste insumo tendo-o como “meio” e não como “fim” da assistência direta. Assim, o médico de família precisa ter em
mente, no ato da prescrição medicamentosa, que
A é importante entender que os medicamentos, especialmente os essenciais, servem para os casos clínicos mais agudos e,
por isso, racionalizar o uso destes medicamentos é necessário, pois os pacientes específicos de áreas de atenção primária
são poliqueixosos e polifármacos. Neste sentido, justifica-se, tanto ética quanto deontologicamente, retirar-lhes todos os
medicamentos que tomam diariamente da forma mais rápida possível e trocar por apenas um medicamento, considerado
“o essencial”.
B não basta, apenas, prescrever o medicamento de acordo com o diagnóstico do paciente reconhecendo seus requisitos
farmacológicos, mas entender que racionalizar o uso de medicamentos é um ato de compreensão da lógica do trabalho
interprofissional, da lógica integrada do sistemas de saúde, de minorar os interesses econômicos da indústria farmacêutica
e ainda de humanizar o cuidado, evitando o ato de medicalização da vida do outro.
C prescrever o medicamento de acordo com o diagnóstico do paciente, reconhecendo seus requisitos farmacológicos, é
fundamental, assim como reconhecer que racionalizar o uso de medicamentos é problemático quando se trata de
pacientes que, culturalmente, exigem do médico a prescrição como sinônimo de ‘boa prática médica’. Assim, é necessária
uma adaptação do médico às expectativas socioculturais da população.
D não basta reconhecer que a população exige o medicamento, tornando-o fetiche do encontro assistencial ‘profissional paciente’. Nessa relação clínica, o centro deve ser o médico e sua autoridade, retirando do medicamento a centralidade da
relação. O poder do médico deve considerar o que é melhor para a vida do outro, destituindo o medicamento desta
posição de objeto-fetiche.
E culturalmente, a população espera do médico que ele aponte soluções “mágicas” para seus problemas de saúde. Não à
toa, a instituição “saúde” e “religião” sempre estiveram muito próximas, pois ambas apontam soluções para a vida do
sujeito, desde problemas biológicos até os espirituais. Ao considerar que essas dimensões estão integradas, o médico
deve, sob abrigo deontológico e ético, admitir que a “mágica” do medicamento é essencial e por isso deve prescrever o
que, segundo a sua consciência, alivie o sofrimento físico e espiritual dos seus pacientes.