Texto CG1A1
Como nasceu Brasília? A resposta é simples. Como todas
as grandes iniciativas, surgiu quase de um nada. A ideia da
interiorização da capital do país era antiga, remontando à época
da Inconfidência Mineira. A partir daí, viera rolando pelas
diferentes fases da nossa história: o fim da era colonial, os dois
reinados e os sessenta e seis anos da República, até 1955.
Pregada por alguns idealistas, chegou, mesmo, a se converter em
dispositivo constitucional. No entanto, a despeito dessa
prolongada hibernação, nunca aparecera alguém suficientemente
audaz para dar-lhe vida e convertê-la em realidade.
Coube a mim levar a efeito a audaciosa tarefa. Não só
promovi a interiorização da capital, no exíguo período do meu
governo, mas, para que essa mudança se processasse em bases
sólidas, construí, em pouco mais de três anos, uma metrópole
inteira — moderna, urbanisticamente revolucionária —, que é
Brasília.
Yuri Gagarin, o famoso astronauta, disse-me ao ver
Brasília pela primeira vez: “A ideia que tenho, presidente, é a de
que estou desembarcando em um planeta diferente, que não a
Terra”.
De fato, o cenário de Brasília tem aspectos realmente
singulares. As cúpulas do Palácio do Congresso, uma côncava e
outra convexa; a imponência da Praça dos Três Poderes,
refletindo o brilho de suas sucessivas fachadas de vidro; o
Palácio do Supremo Tribunal de Justiça, apoiado em alicerces tão
tênues que dão a impressão de que o edifício não toca o chão,
mas flutua; a beleza do Palácio da Alvorada, concebido em
linhas de uma harmonia tão perfeita que o traçado de suas
colunas sui generis já é motivo ornamental até de certo tipo de
louça sofisticada. Tudo ali é diferente, revolucionário. Reflete
uma estética urbanística única no mundo. E, sobre o acúmulo das
maravilhas criadas pelo gênio humano, estende-se o infinito do
horizonte rasgado do Planalto — um horizonte baixo, que lembra
as vastidões marinhas e que, sendo enorme, serve de palco, pela
manhã e à tarde, aos mais deslumbrantes jogos de luz de que é
capaz a natureza.
Assim é Brasília em uma visão caleidoscópica, sem se
recordar o seu todo urbanístico — os blocos residenciais; o Eixo
Monumental; a audaciosa torre de telecomunicações com seu
restaurante panorâmico; as famosas “quadras” autossuficientes,
recordando, em uma feição moderna, as comunidades medievais;
e, sobretudo, o lago artificial, com 600 milhões de metros
cúbicos de água, dotado de praias, iate clube, barcos a vela e toda
natureza de esportes aquáticos.
No mundo existem algumas cidades artificiais, isto é, não
nascidas por imposições sociopolíticas, mas erigidas por
iniciativa de reis ou de governantes. A construção de todas elas
arrastou-se por anos, e algumas, apesar do tempo passado, ainda
não estão de todo concluídas. Por outro lado, nenhuma delas
possui uma história própria — uma história de heroísmo,
audácia, determinação e espírito de pioneirismo épico, que
representou sua construção, exibe uma insígnia que lhe empresta
importância ímpar, quando posta em comparação com suas
congêneres. A nova capital, descontada sua grandiosidade
arquitetônica, permitiu que dois terços do nosso território — que
eram desalentadores “espaços vazios” — fossem conquistados.
Pode-se dizer assim, e com a maior segurança, que o Brasil só se
tornou adulto depois da construção de Brasília.
Juscelino Kubitschek. Por que construí Brasília.
Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2000 (com adaptações).