Como se deve ler um livro?
Quero enfatizar, antes de tudo, o ponto de interrogação no
fim do meu título. Ainda que eu pudesse responder à pergunta, a
resposta só se aplicaria a mim, não a você. De fato, o único
conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não
aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o
próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões. Se estamos de
acordo quanto a isso, sinto-me então em condições de apresentar
algumas ideias e lhe fazer sugestões, pois assim você não
permitirá que elas restrinjam a característica mais importante que
um leitor pode ter: sua independência. Afinal, que leis se podem
formular sobre livros? A Batalha de Waterloo foi, sem dúvida,
travada em certo dia; mas será Hamlet uma peça melhor do que
Rei Lear? Ninguém o pode dizer; cada um deve decidir por si
mesmo essa questão. Admitir autoridades em nossas bibliotecas,
por mais embecadas e empelicadas que estejam, e deixar que elas
nos digam como ler, o que ler e que valor atribuir ao que lemos é
destruir o espírito de liberdade que dá alento a esses santuários.
Em qualquer outra parte, podemos ser limitados por convenções
e leis — mas lá não temos nenhuma.
Virginia Woolf. O valor do riso e outros ensaios.
Tradução: Leonardo Fróes. São Paulo: Cosac Naify, 2014 (com adaptações)