Leia o texto a seguir.
A figura que reinava no imaginário da intelectualidade brasileira
e que tem sua síntese no Jeca Tatu, personagem criado por
Monteiro Lobato, em 1918, como meio de descrever o típico
homem do interior, mobiliza imagens de um país assolado pela
doença e pela vermina, decorrente da falta de saneamento, de
nutrição e de instrução, mas também fruto do descaso dos
governantes. Para os explicadores do Brasil da década de 1910
e 1920, o problema estava em como sanear as imensas
populações de jecas-tatus espalhadas pelo território nacional,
moralizar seus corpos e desmistificar “[...] o mobiliário cerebral
do Jeca [...] [e] o suculento recheio de superstições [...]”
(LOBATO, 1918, p. 286) que povoavam a sua mente. (...) O
melhor caminho seria a imigração, modo mais simples de
melhorar as características raciais do brasileiro. (...) Conforme
Leite (1992), vários ensaístas, como Silvio Romero e Euclides
da Cunha, acreditavam que somente o branqueamento da
população poderia salvar o Brasil da degenerescência. Lugarcomum nos estudos ditos científicos do final do século XIX, que
procuravam provar a desigualdade das raças, das quais a
branca e a europeia seriam superiores, o tema da degeneração,
de acordo com Blanckaert (2001, p. 149), mobilizava outras
questões como “[...] os efeitos da mestiçagem entre raças
diferentes, a limitação da imigração de variada extração, a parte
do inato e do adquirido nas gerações, os problemas de
aclimatação nas colônias, a detecção das frações
‘degeneradas’ da humanidade (alcoólicos, epilépticos, loucos,
pervertidos e criminosos”. As ideias de tornar o Brasil um país
livre dos seus “males de origem”, utilizando o expediente da
imigração, são bem localizadas na historiografia. (...) O corpo
era o alvo a ser atingido pela educação física, a melhoria das
condições biotipológicas pela adoção de regras de higiene, nas
quais estavam inclusos o amor pelo esporte, a exercitação
diária, o aprendizado na escola das regras de saúde, o culto ao
padrão grego de estética corporal, o amor à pátria e a
moralização dos hábitos que poderiam levar à
degenerescência.
SCHNEIDER, O.; NETO, A. F.
Intelectuais, educação e educação física um olhar historiográfico sobre
saúde e escolarização no Brasil.
Revista Brasileira de Ciências dos Esporte, Campinas, v. 27, n. 3, p. 73-
92, maio, 2006, p. 76. [Adaptado].
O texto refere-se ao preconceito como forma de razão
científica, que apontava desde então, o corpo como alvo e
os objetivos da Educação Física como sendo