///
Tudo mudou
A mão do padre levantava a hóstia no momento da consagração. Por baixo da foto, a legenda dizia: “Missa na Candelária celebrada por um cardeal”.
Faz muito tempo, sei que eu era menina, e o que me impressionou não foi nem o nome do cardeal celebrante. Chocou-me a audácia do repórter. Imagine fazer chapa naquela hora sagrada e quase temível, quando todo mundo, de joelhos, curvava a cabeça, batia no peito e baixava a vista para o chão em reverência ao Santíssimo. No colégio se contava que um homem ficara cego por fitar atrevidamente a hóstia consagrada e, quando acaba, aquele homem do jornal não apenas olhava, mas tirava retrato!
E até hoje essa impressão de meninice a me dizer que o ofício se alimenta de tudo, inclusive sacrilégio, não mudou essencialmente. O homem que vive do favor público exibe tudo o que pode, até os seus segredos mais íntimos, até suas lembranças ditas mais sagradas. Sagradas? Ora, para ele nada é sagrado. Tudo é assunto, notícia, tema de história, material de trabalho.
Olha aquele romancista que assiste em prantos ao enterro do irmão predileto. Com um olho ele chora, mas com o outro espia o risco da morte na face descorada, o grotesco dos ritos fúnebres, a pancada da terra a bater nas tábuas do esquife, o ar de chuva no céu, o pó-de-arroz manchado de lágrimas no rosto da viúva. Espia e anota mentalmente e, não tarda, aparecerá um conto ou novela em que se mostre um defunto, uma tarde no cemitério num ar brusco de chuva e uma viúva a chorar.
Ele, por isso, diz que é sincero, e as gentes, os leitores, lhe batem palmas pela sinceridade. E então aquela sinceridade voltada ao aplauso (ou filha de uma irrefreável necessidade de exibir-se?) cada dia mostra mais, ignora qualquer limite. Alega que o público quer ver tudo e saber tudo. E o homem que escreve, então, vai-se despindo até o último pano, igual à rapariga do striptease, que pouco a pouco arranca a roupa do corpo bonito.
Mas no caso dele, a roupa não chega – o público do homem que ainda é mais exigente que a platéia dos espetáculos de nu artístico: ele então abre a arca do peito e mostra o coração batendo, rasga a barriga e exibe as entranhas. Mostra-se a qualquer hora do dia ou da noite, dormindo ou acordado, rezando e pecando, chorando, comendo, até na hora do amor, até na hora do parto – se o escritor é mulher.
Em busca dessa sinceridade, Jean-Jacques Rousseau não se peja de contar que obrigava a pobre Teresa a enjeitar os filhos dele na roda dos expostos. Dostoievski esmiúça até a exaustão os seus espasmos de epiléptico, a terrível embriaguez do seu vício incurável, o jogo. Gide expõe, perversamente, as nuanças mais íntimas do seu desvio e, achando pouco, não nos poupa sequer o espetáculo de frustração e ressentimento que é a vida da pobre Emmanuelle. O’Neill, esse arrasta a família toda para a ribalta – literalmente a ribalta – a mãe morfinômana, os irmãos e o pai alcoólatra.
E não se diga que eles foram grandes a despeito disso. Não, eles se chamam grandes precisamente por causa disso.
Os mais pudicos, se se pode aplicar a idéia de pudor a quem vive de tal ofício, os mais pudicos contentam-se em não aparecer na primeira pessoa e transferem a um personagem supostamente imaginário aquilo que eles não têm coragem de contar de si próprios. Mas o artifício é transparente, jamais engana o leitor curioso. E nem falta o grande exército de críticos, comentadores e biógrafos para esmiuçar o leve disfarce e suprir a palavra não dita ou interpretar a imagem velada.
E para onde vai tudo isso? As confissões mais doidas, as saudades, os remorsos, os desgostos, os erros, as horas negras e, muitas vezes, os crimes? Vai para um altar, para o ouvido de um amigo, um coração confidente? Não queridos, vai para o balcão. Vai ser vendido, feito papel impresso – jornal, revista, livro, bilhete de teatro. Antigamente chegava a ser retalhado por cinco tostões – e menos, pois havia jornais de dois tostões. Hoje subiu de preço, mas ainda é barato, baratíssimo.
E assim mesmo, baratíssimo, muita vez fica a se estorcer nas vitrinas e se esganiçar nos palcos sem achar quem compre.
No período: “E não se diga que eles foram grandes a despeito disso. Não, eles se chamam grandes precisamente por causa disso”. (l. 30), percebe-se que a autora: