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BANGUÊ
Tio Juca se fora para o engenho da mulher. Casara-se com moça de engenho de porteira fechada. E o Santa Rosa ali à espera do coadjutor, de uma perna de governo que fizesse as vezes do meu avô. Para mim não se podiam voltar as esperanças. Eu não dava esperança a ninguém. Chegara dos estudos há mais de mês e parecia que fora ontem que desarrumara as minhas malas. Nem uma vez saíra para rever os meus campos. Só fazia esperar os jornais; e a rede ringia nas correntes. Pretendera construir com a minha família um poderio de alicerces firmes. A minha imaginação agira à toa. Só fazia balançar de rede e ler os telegramas dos jornais.
- O meu avô passava pelo quarto sem olhar.
Na mesa não tinha mais aquela alegria de outrora. Falava da seca, do algodão em baixa, de tudo que não me interessava de perto.
E ele era tudo para mim. Amava-o imensamente, sem ele saber. Via a sua caminhada para a morte, sentindo que todo o Santa Rosa desaparecia com ele. Uma vez até pensara em escrever uma biografia, a história simples e heroica de sua vida. Mas o que valeria para ele uma história, o seu nome no papel de imprensa? Oitenta e seis anos, a vida inteira acordando às madrugadas, dormindo com safras na cabeça, com preços de açúcar, com futuros de filhos, com cheias de rios, com lagartas comendo roçados. E eu o via passando pelo meu quarto sem me olhar, tossindo pelo alpendre, a bater com o cacete na calçada, como nas noites em que ia olhar o relâmpago nas cabeceiras. Seria que ele esperasse ainda por mim? Que um dia eu deixasse a rede e os livros para empunhar o seu cacete de mando?
Começava a sentir a decadência do meu avô. O engenho em ponto de moer. Tudo pedindo o chefe pronto em todos os lugares. Os carros de boi passavam gemendo sob o peso da cana madura para os picadeiros. E cambiteiros estalando o chicote no silêncio da estrada.
No outro dia seria a botada. Safra grande para tirar. Os partidos estavam de cana acamando pela várzea, a flor-de-cuba rachava de grossa.
Nos outros tempos, o velho José Paulino não parava, a gritar para todos os cantos. Montava a cavalo para ver o corte, gritava para os carreiros, para o maquinista, mandava recados para o mestre de açúcar, para os caldeireiros. Nada lhe parecia feito, tudo ainda dependia de suas ordens. Chegava em casa para o almoço, e via-se que todo ele só pensava no serviço; comia depressa e saía para a sua torre de comando que estava em todos os lados do seu navio.
No outro dia, quando o engenho apitasse, às três horas da madrugada, ele estaria lá. Era o primeiro que chegava. E à noite só deixava o serviço quando batiam a última têmpera. Os recados da velha Sinhazinha chegavam, chamando-o para o chá. E o estômago do velho sabia esperar: - Diga que já vou.
E a casa-grande esperava por ele, até que não se precisasse mais no engenho do seu olho de feitor e dos seus gritos de ordem. Tudo no engenho dependia dele. Sabia encontrar jeito para as dificuldades. Era o chefe no grande sentido. O mestre de açúcar queixava-se do carrapato e da cal, pedia-lhe matéria-prima melhor para a sua química.
E era ele que ia examinar as queixas, ver se era desculpa pelo açúcar ruim. Ficava na boca da fornalha para verificar se o bagaço entrava molhado e animar os homens na boca do fogo.
Ele sabia purgar açúcar. Muitas vezes metia o cacete pelas formas para mostrar que o barro estava fraco. Conhecia as canas que davam bom melado, misturando nos picadeiros as mais novas com as mais velhas. E quando não acertava, e não havia maneira de fazer açúcar bom, chegava na mesa desanimado, falando do mestre.
- No tempo do Cândido nunca me sucedeu isto!
Era uma autoridade sempre citada, esta do seu negro escravo que lhe enchera a casa de purgar de açúcar cor de ouro.
Assinale a alternativa em cujo período o emprego da vírgula está CORRETO.