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Nós sabemos que todo discurso é um discurso dialógico orientado em direção a alguém que seja capaz de compreendê-lo e dar-lhe uma resposta, real ou virtual. Esta orientação em direção ao “outro”, em direção ao ouvinte, conduz necessariamente a se levar em conta a relação social e hierárquica que existe entre os interlocutores. Nós já mostramos, em nosso artigo precedente, as modificações que se produzem na forma do enunciado de acordo com a situação do locutor e do ouvinte, e de acordo com o todo do contexto social do enunciado. Nós propomos chamar de “orientação social” do enunciado, esta dependência do enunciado face ao peso hierárquico e social do auditório (isto é, tendo em vista a(s) classe(s) social(is) a qual pertence(m) os interlocutores, sua situação financeira, sua profissão, sua função; ou ainda, como era o caso da Rússia anterior à reforma de 1861, em face do número de camponeses que eles possuíam, seu capital etc.).
Esta orientação social estará presente em todo enunciado verbal ou gestual – a mímica, por exemplo –, qualquer que seja a forma que ele adote: o monólogo – um homem falando para si mesmo – ou o diálogo – duas ou mais pessoas participando de uma conversa. A orientação social é precisamente uma das forças vivas e constitutivas que, ao mesmo tempo em que organizam o contexto do enunciado – a situação –, determinam também a sua forma estilística e sua estrutura estritamente gramatical.
E é justamente na orientação social que se encontra refletido o auditório do enunciado, seja ele realmente presente ou simplesmente pressuposto, fora do qual nenhum ato de comunicação verbal se desenvolve nem pode se desenvolver.
O escritor que não cria unicamente os enunciados de seus personagens, mas cria igualmente o seu aspecto exterior, tem interesse em observar que aquilo a que se chama de “boas maneiras” – o modo de comportar-se em sociedade – nada mais realiza do que “a expressão gestual da orientação social do enunciado”.
Esta manifestação exterior e física da conduta social – o movimento das mãos, a pose, o tom da voz –, que acompanham habitualmente o discurso, é, antes de mais nada, determinado pela consideração do auditório e pela sua avaliação. O que significam as “boas maneiras” de Tchitchkov – maneiras que, inclusive, tomam diferentes formas se ele se encontra com Korobotchka, com Pliouchkine ou com o general Betrichtchev -, senão que elas são a impressão gestual de uma constante consideração do auditório, de uma avaliação sutil da situação social do seu interlocutor, que são a própria essência do seu caráter e representam a condição necessária ao sucesso de suas iniciativas?
A palavra, o gesto da mão, a expressão do rosto e a postura do corpo são igualmente submissos à orientação e por ela estruturados; as “más maneiras” refletem o fato de que não se leva em conta o interlocutor, refletem a ignorância acerca do laço social e hierárquico existente entre o locutor e o ouvinte, e o hábito, quase sempre inconsciente, de não se modificar a orientação social dos seus enunciados – sejam expressos em palavra ou em gesto – enquanto as condições sociais e o auditório se encontram modificados.
Esta a razão pela qual o escritor, quando decide dotar um de seus personagens de “boas” ou “más” maneiras, deve sempre considerar que estas maneiras não são explicáveis como mero resultado de “algumas particularidades inatas” ou como expressão do seu “caráter”. Pode-se afirmar que, a rigor, o personagem é devedor de sua educação, mas não se pode esquecer que a educação corresponde ao esforço por habituar a pessoa a sempre levar em conta seu auditório – dá-se a isto o nome de “saber se comportar socialmente” -, a exprimir pelo gesto ou pela mímica, mas de modo conforme e prudente, a orientação social dos seus enunciados.
I. O gesto da mão, a expressão do rosto e a postura do corpo são igualmente submissos à avaliação do ouvinte, daquele com quem se interage. Sendo assim, esses traços não devem ser considerados durante a interação.
II. Existe uma relação hierárquica entre os interlocutores numa relação interativa. Essa relação está ligada a fatores como a classe social à qual pertencem os interlocutores.