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1 Perto de casa havia um barbeiro que me
conhecia de vista, amava a rabeca e não
tocava inteiramente mal. Na ocasião em
que ia passando, executava não sei que
5 peça. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são
pretextos a um coração agoniado), ele
viu-me e continuou a tocar. Não atendeu
a um freguês, e logo a outro que ali foram,
a despeito da hora e de ser domingo,
10 confiar-lhes as caras à navalha. Perdeu-
os sem perder uma nota; ia tocando para
mim. Esta consideração fez-me chegar
francamente à porta da loja, voltado para
ele. Ao fundo, levantando a cortina de
15 chita que fechava o interior da casa, vi
apontar uma moça trigueira, vestido claro,
flor no cabelo. Era a mulher dele; creio
que me descobriu de dentro e veio
agradecer-me com a presença o favor que
20 eu fazia ao marido. Se não me engano,
chegou a dizê-lo com os olhos. Quanto ao
marido, tocava agora com mais calor; sem
ver a mulher, sem ver fregueses, grudava
a face no instrumento, passava a alma ao
25 arco, e tocava, tocava...
(Machado de Assis, Dom Casmurro)
Os itens seguintes se referem à expressão: “Perdeu-os sem perder uma nota” (linha 10/11).
I. O autor se refere à música que acalma o coração.
II. A expressão significa que o barbeiro preferiu a música que a freguesia.
III. A frase nos leva a entender que, para o homem, a música era mais importante do que o dinheiro, naquele momento.
Dos itens acima: