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Entretanto, a 28 de abril, a Ransdoc anunciava uma coleta de aproximadamente oito mil ratos, e a ansiedade atingiu o auge. Exigiam-se medidas radicais, acusavam-se as autoridades, e alguns que tinham casa à beira-mar já falavam em retirar-se para lá. Mas no dia seguinte, a agência anunciou que o fenômeno cessara bruscamente e que o serviço de desratização apanhara apenas uma quantidade insignificante de ratos mortos. A cidade respirou. Contudo, foi na mesma data, ao meio-dia, que o Dr. Rieux, ao parar o carro diante de casa, viu ao fundo da rua o porteiro, que caminhava com dificuldade, de cabeça baixa, com os braços e as pernas afastados, numa atitude de fantoche. O velho apoiava-se no braço de um padre, que o doutor reconheceu. Era o Padre Paneloux, um jesuíta erudito e militante que encontrara algumas vezes, e que era muito estimado na nossa cidade, mesmo por aqueles que são indiferentes em matéria de religião. Esperou-os. O velho Michel tinha os olhos brilhantes e a respiração ruidosa. Não se sentia muito bem e tinha saído para tomar ar, mas dores vivas no pescoço, nas axilas e nas virilhas tinham-no obrigado a voltar e a pedir auxílio ao Padre Paneloux.
- São uns inchaços - disse. - Devo ter feito algum esforço. com o braço fora da porta, o médico apalpou o pescoço que ele lhe estendia. Tinha-se formado uma espécie de nó.
- Deite-se e tire a temperatura. Venho vê-lo esta tarde.
Quando o porteiro partiu, o médico perguntou ao Padre Paneloux o que achava daquela história de ratos.
- Oh - respondeu o padre -, deve ser uma epidemia.
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A peste - Albert Camus, 1947
A peste foi considerada uma pandemia e não uma epidemia para sua época, essa característica epidemiológica descrita pelo personagem: