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Bahia tem um jeito
O que incomoda na adaptação colada dos palcos para a tela é o modo excessivamente marcado de como os eventos se desenrolam, como as situações se sucedem e como os personagens se encontram. Quem sabe, na versão televisiva, a dispersão não conte pontos a favor.
1 É complicado - e até um pouco redutor - abordar "Ó pai, ó" armado de critérios cinematográficos. Mal filmado, sem um fiapo de linha narrativa, falta-lhe muito arroz com feijão para que seja alçado a uma razoável obra da sétima arte. Ganha-se mais encarando o filme como uma espécie de espelho, um atestado de baianidade.
2 O título "Ó pai, ó" já adianta algumas pistas sobre o modo o filme funciona: a graça está em reconhecer e se reconhecer na expressão e no universo que ela chama em causa. O terceiro longa de Monique Gardenberg é assim, um filme de referência. Para poder funcionar, depende de uma boa parcela de empatia pelo "jeito baiano de ser" - e todos os rótulos usualmente agregados a ele.
3 O uso de uma forma bem própria e imperativa do título demanda do espectador um olhar, que pode ser encarado como um olhar acusatório de denúncia para uma determinada realidade social (a situação do Pelourinho depois da reforma). Mas, antes de mais nada, é um chamado para olhar para o próprio umbigo, para a baianidade embutida na própria expressão (em um movimento de auto-reflexão comum no cinema baiano recente, vide "Cidade Baixa", de Sergio Machado).
4 "Ó pai, ó" investe toda a carga em características como sensualidade, malemolência e deboche e constrói uma cidade retirada das letras das músicas de sua trilha sonora, onde "todo mundo irradia magia" e as pessoas não nascem, mas "estréiam". A depender do gosto do freguês e de sua relação de identidade com a cidade, essa imagem do baiano estereotipado é capaz de despertar amor ou ódio.
5 Ao mesmo tempo em que corrobora a imagem de terra da felicidade de cartão-postal (muitas vezes se assemelhando à propaganda da Bahiatur sa), "Ó pai, ó" busca (sem muito sucesso) um viés de crítica social ao tocar na reforma do Centro Histórico e na expulsão de seus moradores. Há indicadores de violência, prostituição, turismo sexual, racismo. No final das contas, todas também um tanto estereotipadas.
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Colcha de retalhos
6 Sem nuances, nem uma história pra contar, o filme acaba fluindo entre um amontoado de videoclipes independentes (com uma trilha sonora que reúne ótimas pérolas do cancioneiro baiano de Carnaval) e a apresentação desses personagens-tipos, com pequenas esquetes de humor soltas que funcionam como muletas narrativas e não dizem muito por que estão ali. Na falta de uma progressão fluida capaz de ir conduzindo o espectador progressivamente, o suposto final de impacto de crítica social é enfraquecido por um anti-clímax um tanto deslocado e frustrante.
Da adaptação
7 Muitos desses problemas têm origem na sua transposição do teatro para as telas. "Ó pai, ó" vem da peça homônima de Márcio Meirelles encenada pelo Bando de Teatro Olodum nos anos 90. O original funciona, mas nem sempre o que dá certo nos palcos fica bem na película.
8 O caminho mais frequente para reclamar desse tipo de adaptação seria colocar a culpa na atuação teatral (até porque a maior parte do elenco vem do próprio Bando de Teatro Olodum). Mas aqui nem é o caso. A boa performance do grupo é over sim, mas casa com o jeito dos próprios moradores do Pelourinho, que já interpretam papéis por natureza, e em tons bem acima do que o que estamos acostumados.
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9 O que incomoda na adaptação colada dos palcos para a tela é o modo excessivamente marcado de como os eventos se desenrolam, como as situações se sucedem e como os personagens se encontram. Quem sabe, na versão televisiva, a dispersão não conte pontos a favor.
(Por Greice Schneider. In: http://www.cineinsite.com.br. Acesso 21/11/2008)
Na opinião da autora do texto, o título do filme