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TEXTO 1
A trombada
Márcio Américo
I. Em minha cabeça, eu dividia a rua Ivaí em duas partes, a da rua Purus pra baixo, onde morava a escória, os pobres: eu, o Zé Luís, o Barriguinha, o Pilico, os meninos perebentos, sujos, maltrapilhos, que tinham suas cabeças raspadas (corte americano, como dizia meu pai), que levavam em suas bolsas escolares uma caixa de apenas seis lápis de cor, que calçavam sandálias Havaianas, Congas, quando muito um Kichute, que usavam calções que as próprias mães faziam com retalhos; algumas mães mais caprichosas costuravam nas laterais do calção pequenas tiras brancas que lembravam o design dos calções oficiais. Um luxo! Da rua Purus pra baixo moravam os meninos que serravam lanche no recreio, jogavam bolinha de gude a ganhis, andavam descalços e que apenas em ocasiões especiais usavam Kichute, o tênis que tinha o poder de nos catapultar a uma casta superior, virávamos os meninos de Kichute. Da rua Purus pra baixo morávamos nós, os meninos que aos domingos juntavam-se em frente à Fábrica de Doces Delícia, revirando os tambores de lixo à procura de brinquedos recusados pelo critério industrial: índios aleijados, mocinhos decapitados, carrinhos sem rodas, um Zorro com a capa detonada, soldados retorcidos: pra gente eles eram o máximo, talvez por serem a nossa cara.
II. Da rua Purus pra cima moravam os riquinhos, os garotos limpos, os que usavam tênis caros, que recebiam presentes no Natal, que tinham uma Monareta, caixa de doze e até trinta e seis lápis de cor!!! Que comiam chocolate e tinham guardado em cima do guarda-roupas um forte apache com hominhos decentes.
III. A Ivaí cruzava com a Purus a apenas três casas da minha. Todos os meses acontecia um acidente ali. Quando não acontecia, ficávamos decepcionados e éramos obrigados a ir até o depósito do Detran, que ficava no próprio bairro, e recordar dos grandes acidentes, contemplando maravilhosos carros reduzidos a nada. Mas legal mesmo era ver uma Kombi que estava lá abandonada e pela qual nutríamos um carinho especial, quase uma louvação. Foi um dos mais belos acidentes que ocorreram ali na Ivaí com a Purus.
IV. Eu estava sozinho em casa, à noite, quando ouvi um estrondo. Tratava-se de uma trombada. Corri para a rua e encontrei aquele povo concentrado em volta da tragédia, contempladores silenciosos da morte, amantes do sangue e das fraturas expostas.
V. Uma Kombi descia desgovernada a rua Ivaí e, antes de chegar à rua Purus, o japonês kamikaze, motorista da Kombi, foi acabar-se sob um inofensivo caminhão carregado de tijolos que estava estacionado em frente à casa do Genarinho. Se a Kombi não saiu do outro lado da carreta, com certeza não foi por ineficiência do indômito motorista kamikaze, mas porque ela se prendeu ao eixo do caminhão e ali ficou vazando gasolina como se fosse sangue correndo do ferimento de um animal pré-histórico. Nós, os meninos de Kichute, assistimos a tudo, ficamos ali até que chegasse o guincho e, sob nossos olhares enternecidos, retirasse a Kombi.
VI. Vimos a Kombi partir como quem vê ir embora um amigo leal, como quem vê Papai Noel partindo em seu trenó depois de nos deixar uma caixa de doze lápis de cor.
VII. Os garotos do lado de cima da rua Ivaí podiam até ignorar a molecada de baixo, podiam rir de nosso figurino pobre, podiam até possuir forte apache, caixa de trinta e seis lápis de cor, autorama e algumas bugigangas tecnológicas que só serviam para desviar o olhar do tédio, mas nós não, nós tínhamos diversão de verdade, pura, quente e real.
VIII. Aquele motorista kamikaze morou em nossas memórias, em nossas brincadeiras. Quando brincávamos de carro, que estávamos dirigindo, todo mundo queria ser o japonês kamikaze.
IX. Durante um tempo, aquele japonês me perseguiu nos sonhos, pelas ruas a caminho de casa, na morbidez escura do quintal vazio. Ouvia seus passos, sua respiração, sua voz. Chegou a me pedir pra ver meu álbum Brasil Pátria Amada. Nunca deixei.
É ponderação possível acerca do texto I