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A SUSTENTABILIDADE DO FUTEBOL
Por que o futebol é o esporte mais amado do planeta? Há muitas razões, claro, e de modo algum teria a pretensão de lembrá-las das elas. Há o passe e a associação que caracterizam um dos mais coletivos entre os esportes, a plasticidade dos movimentos, o ritmo, a variação das jogadas, e muitas outras qualidades. Mas a verdade é que esportes como voleibol, basquetebol e outros possuem vários desses atributos.
Por que, em todo o mundo, com poucas exceções (notadamente os Estados Unidos e a Índia), os povos amam principalmente o futebol? Por que a Copa do Mundo, de um único esporte, é um evento que atrai mais atenção que as Olimpíadas?
Penso que é porque o futebol é como a vida. Explico. Em primeiro lugar, por uma razão estatística: a frequência dos eventos. No basquete e no vôlei, a oportunidade aparece frequentemente, a qualquer momento se pode fazer um ponto, uma cesta. No futebol, não. Como na vida, quando a chance aparece, ou é construída, tem que ser aproveitada, porque é um evento raro.
Consequentemente, nem sempre vence o melhor, o imponderável e o aleatório pesam sobre o resultado do jogo. Mas, tal como na vida, talento e competência aumentam as probabilidades de sucesso. O futebol é uma caixinha de surpresas? A vida...
Além disso, como na vida, nem sempre se pode usar o que se tem de melhor (as mãos), e sim o que for possível, no caso, os pés. E a cabeça, sempre. A vida social nunca é perfeitamente democrática, mas nosso ideal de sociabilidade é. No futebol esse ideal é realizado porque as regras são para todos e porque o talento, embora se distribua de forma muito desigual (como na vida), não segue nenhum padrão preestabelecido. O cara alto, forte e bonito pode ser um tremendo perna de pau e o baixinho de pernas tortas pode ser o Garrincha ou o Romário.
Por ser tão parecido com a vida, e para continuar tão parecido com ela, tornou-se um imperativo a mudança de algumas regras do futebol. Em primeiro lugar, uma reforma política. As falhas da justiça podem ser toleradas na vida porque são aceitas como inevitáveis frente às dificuldades para conhecer a verdade. Mas se a realidade fosse filmada de todos os ângulos e repetida em telões segundos após os eventos, a injustiça se tornaria intolerável. Paralisar um jogo por breves momentos para que um juiz fora das linhas examine imagens nos casos de lances decisivos pode muito bem vir a ser uma necessidade para que o futebol mantenha a credibilidade de sua marca.
Outras regras que deveriam ser alteradas dizem respeito às relações entre tempo e espaço no desenvolvimento do jogo. Hoje, um atleta profissional corre entre 9 e 11 quilômetros durante os 90 minutos de uma partida, contra 3 ou 4 nos anos 70. Essa maior velocidade e a aceleração decorrente da explosão muscular dos atletas criaram uma nova dinâmica muito mais intensa, e várias jogadas como dribles e lançamentos se tornaram muito raros.
A diversidade de formas de jogar reduziu-se muito e, com isso, o encanto do jogo. Ficou menos parecido com a vida, bela no cotidiano e mágica nos grande momentos, e mais com um basquete quase sem cestas.
Na maravilhosa novela de Lampedusa "Il Gattopardo", a transição do antigo regime para o novo reino provocou a famosa frase do Príncipe: "Algo deve mudar para que tudo siga igual". O mesmo agora para o futebol, mas, nesse caso, por um último motivo: salvar a magia.
(Sérgio Besserman, Jornal O Globo, 16 de julho de 2010, com adaptações)
No segmento "...teria a pretensão de lembrar todas elas." (l. 2/3), o verbo lembrar apresenta registro formal. Dentre as frases apresentadas a seguir, a que apresenta registro informal é: