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ALFABETIZAR O TRÂNSITO
Semana passada, três jovens americanos do estado da Flórida foram condenados a 15 anos de prisão, cada um, acusados de homicídio. Eles roubaram placas de sinalização das ruas da cidade, principalmente as que diziam Pare. Foram responsabilizados pelos inúmeros acidentes que aconteceram em seguida, incluindo um com três vítimas fatais. Três jovens como eles.
O carioca não tem o hábito de ler as placas de sinalização. Muito menos de segui-las. Como o brasileiro em geral lê pouco ou quase nada, não é de se espantar que isso se reflita no comportamento no trânsito. A falta de leitura gera ignorância e produz esperteza. No trânsito é igual. Não ler as placas produz um motorista ignorante, irresponsável, desinformado, egoísta e esperto. A sua linguagem é essa. Assim ele sobrevive. Mas a noção de sobrevivência do motorista esperto é, naturalmente, individualista. Não passa pela noção sofisticada do comportamento coletivo, que talvez seja hábito de um povo que lê.
Ler o sinal vermelho e entender o que ele diz, seja dirigindo o seu carro, pilotando a sua moto, pedalando a sua bicicleta ou caminhando com os próprios pés, é um passo definitivo no caminho da civilização. É consequência imediata do aprender a ler geral, do conhecimento adquirido, da capacidade de refletir, raciocinar, concluir e com isso talvez até ajudar a transformar a realidade para melhor. Ler os símbolos da cidade e entendê-los é como ler um livro e aprender sobre outras pessoas, outros mundos, outras formas de pensamentos e concluir que você também é alguém, que tem o seu lugar e que pensa. Um povo que sabe ler não avança sinal. Um povo que sabe ler não põe em risco o direito fundamental de cada cidadão, ele incluído, que é o de ir e vir. Um povo que sabe ler sabe entender, sobretudo, o que vê no rosto de quem está a seu lado.
É necessário alfabetizar o motorista carioca. Ensiná-lo a ler com os olhos e escrever com a direção, para concluir que fazemos parte de um mesmo texto, uma mesma história que nós mesmos estamos escrevendo com as nossas pernas, com os nossos passos e os caminhos que conseguimos traçar sem que o destino ou um motorista ignorante nos atropele.
(Miguel Paiva, O Globo, 27 de junho de 1997, com adaptações)
No segmento "Eles roubaram placas de sinalização das ruas da cidade." (l. 3/4), substituindo-se a expressão em destaque por um pronome, resulta: