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ENTRE AS ACÁCIAS
Paciência, meu jovem: carreira de escritor — poeta, romancista, contista — no início é assim, sofrida e incerta. Nem é profissão; é, como se diz, uma atividade. Não há mercado, vagas, demanda. Há editores de livros que vêem até com alguma irritação essa coisa de gente tentando começar: eles buscam nomes famosos, sucessos, confissões picantes; no mínimo, procuram boas apostas, não riscos. Já os escritores querem... Que querem mesmo os escritores?
Publicar. Querem leitores. O problema é que os iniciantes começam sem eles. Alguns vão atrás de leitores especiais, escritores conhecidos (seus desconhecidos), na esperança de que os leiam, e recomendem, ou instruam.
Ao escrever “entre as acácias” estou citando o Carlos Drummond de Andrade de um divertido poema muito mal-humorado sobre o — como chamá-lo? — assédio autoral. Está em Viola de Bolso II. Os primeiros versos não fazem cerimônia: “Ah, não me tragam originais / para ler, para corrigir, para louvar / sobretudo, para louvar”. E diz que os talentosos não precisam de sua ajuda: “Passam gênios talvez entre as acácias / sinto estátuas futuras se moldando / sem precisão de mim”. Lindo decassílabo: passam gênios talvez entre as acácias.
E não é coisa de hoje. Samuel Johnson (1709 – 1784), famoso pensador e literato inglês, devolveu o manuscrito a um jovem escritor com palavras cruéis que ficaram famosas. “Seu livro é bom e original. Infelizmente, a parte que é boa não é original, e a parte que é original não é boa”.
A mais encantadora das desculpas desses leitores relutantes foi dada pelo poeta gaúcho Mário Quintana a uma senhora que lhe estendeu um calhamaço datilografado para ler: “Leio, leio sim, minha querida. Mas ainda não li Goethe, não li Rilke, nem Schiller, nem Byron, nem Tasso. Todos esses estão na sua frente, está bem?”.
Você tem uma saída: o concurso literário. Os escritores do júri vão ter de ler o seu texto, sem escapatória. Em vez de um leitor, cinco! Com uma boa classificação, aparecem os editores. Mesmo aí, jovem, o insucesso não é definitivo. Até Guimarães Rosa perdeu concurso.
(Ivan Ângelo, Veja – São Paulo, 18/10/2006, com adaptações)
“Ah, não me tragam originais” (L.11) — o verbo trazer está corretamente empregado em: