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E A MÍDIA NISSO TUDO?
Historicamente, sabe-se o quanto os jornais contribuíram para a glamourização de criminosos e para a promoção involuntária de seus crimes. Durante décadas, vigorou no Rio uma prática em que a banda podre da polícia manipulava repórteres policiais para “mineirar” (extorquir) bandidos. Pautava um criminoso como “o mais perigoso da cidade” e, quando ele chegava às primeiras páginas, prendia-o em segredo e soltava-o mediante pagamento. Quanto mais famoso, maior o valor da extorsão.
Hoje isso não existe mais como norma. Mas até que ponto, sem querer, não participamos da mitificação de bandidos? Ziraldo acaba de voltar de uma viagem de trabalho à Colômbia, onde aproveitou para tentar saber como Bogotá conseguiu baixar suas taxas de criminalidade. Constatou, por exemplo, que os intelectuais e jornalistas com quem conversava não sabiam o nome de um bandido sequer, simplesmente porque não sai publicado. Segundo lhe contaram, houve um acordo tácito da imprensa nesse sentido.
Claro que não foi só assim que se conseguiu diminuir o número de homicídios. Na verdade, houve uma eficaz combinação de medidas preventivas e repressivas: moralização e capacitação da polícia, formação de tropas de elite, centralização do combate às drogas, desarmamento, extradição de criminosos e inclusão social. A exemplo da luta contra a máfia na Itália, foram instituídos os “juízes sem rosto” só para julgar traficantes, e construíram-se penitenciárias de segurança máxima com implacável disciplina interna.
Ao voltar, Ziraldo estranhou algumas matérias de quase apologia ao bandido-chefe dos atentados. “Diziam que ele é leitor de Dante Alighieri e do filósofo chinês Sun Tzu, que é líder inteligente, capaz de proezas, etc. Tratamento digno de uma personalidade. Será que isso é fundamental para a liberdade de imprensa?”
Não é fácil encontrar a medida certa, já que é tênue a linha que separa o autocontrole da autocensura. Mas ele tem razão quando acha que algum cuidado deve ser tomado para evitar excessos de tolerância, como tratar o maior traficante do Brasil pelo carinhoso diminutivo de “Fernandinho”. Há uns dois anos a maioria dos jornais cessou de chamar pelos nomes as facções criminosas, e nem por isso a liberdade de informar sentiu-se prejudicada.
(Zuenir Ventura, O Globo, 20 de maio de 2006, com adaptações)
No segmento “Mas ele tem razão quando acha...” (L.20), o pronome refere-se: