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MEU HARÊM AFETIVO
A vida não me deu irmãs. Me criei apenas com um irmão mais moço. Meu pai era militar e minha mãe, filha de militar, uma mulher carinhosa e dedicada, mas muito contida de gestos e expressões.
Assim, cresci num ambiente onde a presença da mulher era muito discreta. Nossa casa tinha uma aparência sombria e austera, uma casa masculina com certeza. Sempre invejei meus amigos que tinham irmãs, aquelas pessoas tão diferentes que passam horas diante do espelho, mordem os lábios para eles ficarem vermelhos como maçãs maduras, da cor daquela maçã que Eva deu a Adão, dando começo a esta deliciosa história.
Me lembro que ficava imaginando: como será conversar com uma irmã? O que será que elas pensam da vida?
Com toda a minha ignorância, não é difícil vocês fazerem uma ideia de como foi complicado o começo da minha vida sentimental.
Simplesmente, eu não sabia como conversar com as pessoas do sexo oposto. Estampa até que eu tinha, e algumas garotas até me achavam, com meu topete, parecido com Elvis Presley. Mas, ao lado ou diante de uma garota, eu era uma lástima. Era como se pertêncessemos a duas espécies diferentes do mundo animal. Tente imaginar uma conversa entre uma borboleta e um colibri. Era algo assim.
Depois de trocar as banalidades de praxe, filmes, discos, ídolos, minha cabeça dava um nó. Silêncio total. E agora? A garota ali, esperando que eu fosse engraçado, fascinante, emocionante como um parque de diversões. Pensando nisso, hoje, me ocorre que talvez a garota ao meu lado também estivesse tendo problemas. Mas pode ser até que tivesse crescido sem irmãos e achasse um rapaz o mais esquisito dos seres. Isso não me passa pela cabeça, eu fervilhava de emoções.
Mas, na hora em que elas iam sair, alguma coisa acontecia na passagem das emoções para as palavras, e era aquele curto-circuito, aquele coração batendo que nem louco, e eu dizendo coisas profundíssimas do tipo: "Aceita um chiclete?"
Só que eu nunca desisti. Por mais estranhas que me parecessem, alguma coisa em mim dizia que eu tinha nascido para viver com aqueles seres feitos de maravilha e mistério, que a felicidade para mim era uma palavra feminina. Tinha certeza de que, um belo dia, a maldição de não poder me comunicar com o sexo oposto ia acabar.
(Paulo Leminski)
Constitui exemplo de emprego de linguagem popular o segmento: