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QUANDO A INFELICIDADE DA PERGUNTA É A RESPOSTA
O que é o desenvolvimento sustentável? Não sabemos, felizmente. Como disse certa vez o psicanalista francês André Green, "a infelicidade da pergunta é a resposta". E essa não é uma pergunta qualquer. É a pergunta. Com o Livro aprendemos que a revelação se dá pela História. E, mesmo a da humanidade, tem seus momentos definidores.
Os próximos muitos anos são um desses momentos decisivos da história. Sabemos que estamos consumindo de uma forma insustentável os recursos que a natureza nos oferece e renova. E que, com o crescimento da população e a desejável elevação dos padrões de consumo de bilhões de pessoas, essa tendência será fortemente acelerada.
O rumo atual é insustentável! Pode causar estranheza tal assertividade. Afinal, não apenas não sabemos com clareza o significado do conceito de desenvolvimento sustentável, como também não sabemos medir a noção de sustentabilidade com precisão.
Há muitos esforços importantes sendo despendidos para nos aproximarmos de melhores mensurações da ideia de sustentabilidade. A medição do Produto Interno Bruto dos países está sob implacável crítica por suas grandes fragilidades, e a forma insuficiente e equivocada de as contas nacionais considerarem os recursos naturais é uma das razões mais importantes.
Também a Comissão de Estatística das Nações Unidas tem promovido a elaboração de uma família de indicadores de desenvolvimento sustentável pelas instituições nacionais de estatística. E muitos indicadores sintéticos e outras formas de avaliar a sustentabilidade do desenvolvimento atual estão sendo aprimorados.
Esses esforços têm dado origem a ferramentas importantes e úteis. As pesquisas científicas, assim como as estatísticas e indicadores, sugerem cenários com forte tendência à degradação da capacidade da natureza de renovar serviços fundamentais à qualidade da vida humana (clima, água doce, solos férteis, biodiversidade, etc.) em velocidade condizente com as taxas previstas para sua utilização. Essa é a crise ambiental do século XXI em sua dimensão conhecida.
Somos, contudo, muito ignorantes sobre a realidade natural do planeta e há um risco acima do aceitável de estarmos gerando processos irreversíveis que trariam no futuro consequências potencialmente catastróficas para a civilização e a espécie humana. Para qualquer mentalidade racional, o princípio da precaução é o imperativo aplicável.
É importante lembrar que esse processo é insustentável para a civilização e para a biodiversidade do nosso tempo, mas não para a natureza. Na escala de tempo do planeta, contada em milhões e de milhões de anos, a humanidade é impotente para gerar dano significativo à natureza.
Não sabemos o que é o desenvolvimento sustentável e tampouco temos claro o que significa desenvolvimento. A identidade entre crescimento econômico e desenvolvimento é o produto de uma época histórica, que, como todas as demais, será superada.
Desenvolvimento, como observou notavelmente Jean Claude Carrière, é etimologicamente inequívoco em várias línguas. Desenvolver não significa apenas "ampliar, crescer" e, sim, "des(fazer) o que está envolvido; ou, em espanhol, des(arrollar) o que está arrollado; ou ainda, em francês ou inglês, development/développement, isto é, des-envelopar". Desenvolvimento, para a sabedoria da linguagem, é um processo de libertação de um potencial contido, aprisionado pelas circunstâncias da história.
Finalmente, sustentável é muito mais do que simplesmente duradouro. E significa mais, até, do que compromisso com as futuras gerações. Sustentável diz respeito ao tempo. A consciência humana também diz respeito ao tempo e o que distingue o homem é a consciência.
Chegou o momento de a humanidade deixar a adolescência, reconhecer a existência de limites e ampliar as fronteiras de sua relação com o tempo, isto é, assumir um pouco mais conscientemente a sua história em um tempo mais longo.
A questão do desenvolvimento sustentável confunde-se com a questão da consciência humana. A pergunta: "O que é o desenvolvimento sustentável?" é também a pergunta "Quem é o Homem?" A resposta para a pergunta sobre o que é o desenvolvimento sustentável é também a resposta sobre quem será o homem que o homem construirá.
(Sérgio Besserman, Jornal O Globo, 15/08/2010, com adaptações)
A preposição para tem valor semântico de consequência no trecho: