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VERGONHA DA MESÓCLISE
Não pretendia voltar a escrever sobre como a língua vai mudando, por não querer ser chamado de velho caturra, mas esta semana (ou, segundo a atual usança, "nesta semana"), por exemplo, cheguei à conclusão de que estamos caminhando para a adoção de uma nova regra em relação às orações com sujeito na terceira pessoa, tanto do singular quanto do plural. Assisti a muitos noticiários de televisão nos últimos dias, ouvi muitas entrevistas com todo tipo de gente, e a conclusão dispensa maiores pesquisas. Dentro em breve vai ser errado dizer, por exemplo, "o avião teve uma pane elétrica". Imagino que, a continuar a tendência, as crianças nascidas hoje não compreenderão uma frase assim, porque jamais a ouvirão. Ouvirão "o avião, ele teve uma pane elétrica". E lerão numa gramática da norma culta que, na terceira pessoa, o sujeito precisa ser confirmado pelo pronome para o enunciado ficar claro. Para nós, velhos caturras, isso nos aproxima de nossos parentes de Neanderthal, mas que é que se vai fazer, só se fala assim, é impressionante. Talvez seja uma espécie de muleta verbal, para dar tempo de se achar com clareza o que se vai dizer, embora eu considere pigarrear muito mais decente do que dar a impressão de que se aprendeu a falar faz dez minutos.
Outra usança: estabeleceu-se o "você", no lugar do nosso bem mais respeitável "se". Agora não se faz mais nada, é você quem faz. Por exemplo, a afirmação "deve-se checar" é substituída por "você deve checar". De novo, só se ouve falar assim e de novo temo que se transforme em regra, até porque você escuta muito isso dos próprios professores e você sabe que, quando você aprende algo de um professor na infância, você nunca esquece e aí você usa na vida o que você aprendeu na escola.
Na mesma linha, embora costume poupar os mais velhos, enquanto ataca impiedosamente a flor da nossa juventude, está a extinção, por enquanto pouco notada, mas insidiosa, da flexão verbal do futuro, não só do indicativo, mas de outros modos. Não se diz mais "Eu irei a São Paulo domingo". Quando me dei conta desse fenômeno, achei que, além de caturra, estava ficando surdo para combinar. Em algumas flexões isso soa penoso, mas o pessoal persiste e já ouvi, como muitos de vocês devem ter ouvido, "ela ia ir". Soa um pouco como um cavalo relinchando e acredito que não será por acaso.
Ah, dirá talvez a maioria de vocês, são de fato caturrices, rabugices – como já as qualifiquei aqui mesmo. Até admito, mas existe o direito de sentir saudades de uma língua que dispõe (ou dispunha) de recursos expressivos elegantes e precisos e que os vai perdendo tão esbanjadamente, a ponto de a gente ter vergonha deles. Da mesóclise, coitada, nem se fala. Seu raríssimo emprego é obrigatoriamente seguido de uma explicação ou piada, porque, se for sério, é considerado pedante ou ridículo, talvez porque quem pensa assim crê que usá-la envolve dificuldades insuperáveis. Da mesma forma, combinações como "mo", na frase "depois que eu vi o livro, ela mo deu". Só se diz "ela me deu", o que pode até gerar interpretações marotas em relação à senhora referida pelo "ela".
Mas vamos ser otimistas e torcer para que a situação seja apenas passageira e que nossa língua volte a ser tratada com o afeto respeitoso que outrora despertava. A esperança, ela é a última que morre.
(João Ubaldo Ribeiro, Jornal O Globo, 7 de junho de 2009, com adaptações)
Recorreu-se ao recurso da coesão referencial anafórica no segmento "De novo, só se ouve falar assim" (l. 26/27). Esse recurso também foi empregado no trecho: