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A inveja é o mais abrangente e o mais bem distribuído dos pecados. Homens e mulheres, pobres e ricos, todos têm, ou já tiveram ou vão ter, ainda que não confessem, mesmo porque ela é inconfessável, tanto quanto é democrática e sorrateira.
Quando alguém diz que tem inveja de alguém, é mentirinha. Quem tem não confessa. Dizer “morro de inveja de Picasso” é fácil e falso. De quem você tem inveja mesmo é daquele rival ou colega de profissão, bem sucedido, rico e feliz, do qual você diz ser grande admirador. Aliás, a inveja não abole a admiração. Ao contrário, aquela em geral nasce desta. Inveja quase sempre é admiração de mais, é quase apropriação antropofágica do invejado, desejo de sugar, de devorar as virtudes do outro.
Insidiosa, dissimulada e insaciável, ela é o mais antigo e o mais atual dos pecados da face da Terra – aliás, da Terra e do Paraíso, já que foi lá onde tudo começou. Lúcifer, como se sabe, teve suas desavenças com o Criador por inveja. Ele é o exemplo fundador da inveja por complexo de superioridade, por achar que era melhor. Nunca se conformou de não ter sido o autor do projeto original.
A inveja é o pecado mais adequado a um mundo que estimula a competitividade e a superação. Que diz a todo momento: seja um vencedor, inveje o próximo para superá-lo e, se possível, arrasá-lo. É de se invejar o esforço da pós-modernidade e do neoliberalismo para promover essa revolução de transformar em virtude a inveja.
Se conseguir isso, como muitos já acham que se está conseguindo, o até então desprezado Lúcifer, o invejoso, vai poder reivindicar para si um outro papel na história, já que sempre se opôs ao projeto em vigor, acusando-o de ser um projeto imperfeito, construído às pressas e com graves defeitos de fabricação, como o de atribuir livre arbítrio a quem ainda não estava preparado para decidir entre o bem e o mal. O resto será de marketing, mudança de imagem. Seus aliados alegam: o problema de Lúcifer é que nunca teve boa imprensa.
Por tudo isso, escolhi a inveja como tema. Mas depois de escolher, fiquei morrendo de inveja do Veríssimo, que vai falar da gula, e do Ubaldo, que preferiu a luxúria. É como dizem aqueles adesivos que se usam em carros: A inveja é uma m...”
(Zuenir Ventura, Jornal do Brasil, 8 de dezembro de 1996, com adaptações)
O título do texto se justifica no segmento: