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Há trinta anos, em 21 de dezembro de 1980, morria o grande Nelson Rodrigues. Tenho obsessão por esse autor, em especial por suas crônicas. Cheguei a publicar um livro intitulado “A economia como ela é...” – em alusão e homenagem à famosa série de contos “A vida como ela é...”. Minha cultura literária começa e acaba com Nelson Rodrigues. Foi com ele que aprendi, entre outras coisas, a escrever para um público leigo, não especializado. É muito mais difícil do que talvez possa parecer. Clareza e simplicidade não vêm de graça. “Reclamam que minha linguagem é pobre”, disse Nelson Rodrigues certa vez, “não fazem ideia do esforço que faço para empobrecê-la”.
Eis aí uma grande realidade – a espontaneidade na escrita exige todo um esforço de desconstrução. Todos nós carregamos nas costas não sei quantos vícios de redação, poses, noções de estilo, frases prontas ou semiprontas, ideias feitas – ideias pseudossofi sticadas, porém feitas, rigorosamente feitas. O jargão especializado e o linguajar obscuro escondem, não raro, a inépcia e a falta de imaginação.
Custa muito alcançar, por exemplo, uma escrita coloquial e conversar, simplesmente conversar com o leitor. A versão escrita da linguagem falada não é a reprodução pura e simples. É imitação trabalhada, burilada, sutilmente estilizada. A espontaneidade precisa, portanto, ser minimamente elaborada.
Nada deveria ser improvisado. A pausa é um artifício, um traço dramático. Assim, a hesitação. Assim, a ênfase. Assim, a digressão e a divagação. São recursos que produzem o efeito da autenticidade ou da realidade sem serem verdadeiramente autênticos, espontâneos, reais. Entre o impulso inicial e a publicação cabe todo um cuidado de rever, repensar, reler, reescrever.
Tudo pode ser simples. Mas o escritor, mesmo de modestos artigos de jornal, deve evitar as armadilhas da improvisação, da sinceridade, da espontaneidade não trabalhada. E fugir do lugar-comum como da peste.
Pode-se afirmar que o tema do texto é: