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SOBRE A BAGUNÇA
Fui bagunçado desde que me lembro. Bem que minha mãe se esforçou. Deu-me bons e organizados conselhos. Sem resultado.
Onde foi que a minha bagunça começou? Sei que não foi por exemplo, por força do meio ambiente, porque o meu pai e a minha mãe gostavam de ver as coisas em ordem. Acho que nasci bagunçado. Tenho uma teoria muito esquisita: a gente nasce como nascem as árvores, de sementes. Semente de pitanga vira pitangueira, caroço de manga vira mangueira, semente de laranja vira laranjeira. É possível fazer várias coisas com a mudinha: adubar, podar, amarrar estacas, proteger do sol, fazer bonsais. Mas o que não é possível é mudar a árvore que está dentro da semente. Acho que a bagunça estava na minha semente.
Eu, menino de sete anos, acordava às sete horas da manhã e pulava da cama. Não é que o sono me faltasse. É que eu achava o mundo tão interessante que não suportava ficar deitado, vendo-o passar. Pulava da cama para viver. E começava a andar pela casa fazendo barulho, todo mundo dormindo. Ficavam bravos comigo. Mas o que eu queria era acordar aqueles dorminhocos que estavam perdendo as alegrias do viver, dormindo. Porque quem está dormindo está fora do mundo.
O meu mundo tinha coisas de mais. E eu queria experimentar todas. Daí minha agitação. Estava brincando com uma coisa e então, de repente, eu via uma outra que me chamava a atenção. Eu abandonava a primeira e ia atrás da segunda. Aqui, precisamente aqui, está a explicação da minha bagunça. Porque, na pressa de seguir a segunda, eu deixava a primeira do jeito como estava. Ficava lá, fora do lugar, abandonada, bagunçada... Se fosse hoje, acho que me levariam a um psicólogo que diagnosticaria hiperativismo. Mas... o que podia eu fazer? Eu não era hiperativo. O mundo é que era hiperinteressante.
Não mudei, continuo do mesmo jeito. A árvore-bagunça continua a mesma, crescida. Agora vejo coisas que não via quando menino.
Aí meu pensamento bagunçado, que não marcha em linha reta, anda aos pulos, saltando de pico em pico, lembrou-se de um aforismo de Nietzsche: “Digo-lhes: é preciso ter o caos dentro de si mesmos a fim de dar à luz uma estrela dançante. Digo-lhes: vocês ainda têm o caos dentro de vocês.
Então é do caos que nasce a ordem? Essa ideia combina com os mitos bíblicos da Criação: “No princípio a Terra era sem forma e vazia e um vento impetuoso, furacão, soprava sobre a superfície das águas.” Era o caos. E do caos surgiu um jardim, paraíso. Concordo, porque é da minha bagunça que nasce a minha literatura...”
(Rubem Alves, Um mundo num grão de areia, com adaptações)
Segundo a teoria do enunciador, sua natureza bagunceira é: