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DANINHAS E DESEJADAS
Criada em 1820 para ser a Praça do Comércio do Rio de Janeiro, a Casa França-Brasil volta a ter ares de lugar de encontro, num ambiente criado pela artista Rosana Palazyan. As colunas neoclássicas do edifício projetado por Grandjean de Montigny ornamentam quatro canteiros de um grande jardim. No centro da praça, um homem toca realejo, daqueles de antigamente, que não se veem mais nas ruas, em que um pássaro retira uma mensagem de sorte. O jardim, ainda que apaziguador, é formado por plantas daninhas, entre algumas flores nobres. E as mensagens do realejo, ainda que coloridas, trazem textos duros e mesmo chocantes, entre palavras mais amenas. As 190 frases são depoimentos de moradores de rua.
A criação é uma das muitas em que Rosana une delicadeza com contundência, como define a curadora da mostra, Marta Pagy. Grande parte de sua obra se origina das histórias de pessoas socialmente excluídas, como jovens infratores, meninas violentadas e moradores de rua. Mas, no início dos anos 2000, a artista havia recebido críticas de que um certo caráter assistencialista se sobrepunha à qualidade estética. Ela continua buscando histórias de marginalizados, mas acredita que seu trabalho amadureceu e lida melhor com elas, como na obra "No lugar do outro", recriada para a exposição.
Na instalação, dezenas de casulos saem das paredes de uma sala da Casa França-Brasil. Ali, dois biólogos, durante uma performance, retiram dos casulos tecidos bordados com desenhos das linhas das mãos de seis pessoas — ex-moradores de rua que estão há pelo menos um ano com a vida reestruturada.
Rosana conheceu os biólogos num borboletário de São Paulo, quando, para criar a obra, estudava sobre borboletas, que têm um processo de transformação bem definido. Lendo um livro de biologia, ela descobriu que o extermínio de plantas daninhas estava ameaçando de extinção as borboletas e outros insetos. E então teve a ideia de pôr as plantas no chão da galeria Leme, em São Paulo. Foi assim que surgiu o trabalho "Por que daninhas?", uma coleção de plantas consideradas nocivas, cujas raízes Rosana transformou em frases formadas por fios de cabelo. O texto de cada uma foi retirado de um livro de agronomia.
— As frases sobre as plantas daninhas têm muito a ver com o modo como a sociedade vê as pessoas que estão à margem — afirma Rosana.
Alguns dos exemplares de daninhas foram fotografadas e ampliadas pela artista, que inseriu em cada uma o carimbo "daninhas?".
— Várias dessas plantas dão flores lindas, só que muito pequenas. Quando elas são ampliadas, você pensa que são flores nobres, mas não são — diz. — Quis relativizar a beleza. O belo depende de uma referência, de um ponto de vista.
Rosana já tinha pensado em criar um ambiente só com as tais plantas nocivas, mas fez um projeto especialmente para o edifício da Casa França-Brasil, integrando as colunas aos canteiros, cada qual com um caminho de pedras entre a vegetação, onde o público pode passear. O jardim foi formado por mudas de uma chácara em Vargem Pequena. Lá a artista aprendeu que plantas que não eram consideradas daninhas em outras épocas passaram a ser por nascerem em cultivos produtivos, e outras, que eram rejeitadas, hoje são plantas ornamentais. Em outros casos, segundo um dos jardineiros que participaram do plantio para a exposição, é apenas uma "questão de moda".
— Um agrônomo me disse que qualquer coisa pode ser daninha se nasce num lugar indesejado — diz a artista, diante de um jardim onde todas as plantas são desejadas.
"...a artista havia recebido críticas de que um certo caráter assistencialista..." (l. 17/18) — o termo assistencialismo pode ser definido como: