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Está para voltar o critério da “demanda social” para abertura de cursos superiores. Para um economista puro-sangue é uma contradição de palavras. Demanda tem a ver com gente querendo pagar. Social teria a ver com interesse coletivo. Juntando as duas coisas só pode ser apagão intelectual. Mas deixemos as querelas teóricas.
A idéia de buscar “demanda social” para autorizar um curso é antiga. O critério é um sobrevivente anacrônico da época em que para cada novo graduado havia um emprego descrito por uma palavra com a mesma raiz. Para os médicos, haveria empregos de médico, para os advogados, de advogado, e por aí afora. Mas já no censo de 1991 bem mais da metade dos graduados do ensino superior tinha empregos distantes do que estava escrito no seu diploma. Hoje, é ainda maior a proporção dos “desprofissionalizados”. A muitos, dá gosto pôr a culpa em fatores externos. Mas, se é assim também nos Estados Unidos e na Europa, é porque o número de diplomados do ensino superior tende a crescer bem mais rápido do que a economia.
No fundo é simples. As profissões tradicionais crescem pouco. Em contraste, com as mudanças tecnológicas, é célere a expansão das “genéricas”, em que é preciso cursar os quatro anos do ensino superior, mas não faz muita diferença o que nele se estuda. Envolvem comprar, vender, mandar, organizar, comunicar-se etc. As competências requeridas são ler, escrever, usar números, resolver problemas e trabalhar em grupo. Em suma, pensar analiticamente e aprender rápido o que quer que apareça pela frente.
Diplomas como os de Medicina e Odontologia continuam levando às ocupações correspondentes. Mas em outras matérias, como Economia, nem sequer 10% dos graduados trabalham na função. Os filósofos têm apenas 5%. Saturação dos mercados? Longe disso, as estatísticas mostram que entre os diplomados nessas áreas as taxas de desemprego são pelo menos a metade da média nacional e os níveis de rendimento pelo menos o dobro dos auferidos por quem não tem diploma. E, afora o choque inicial de descobrir que o emprego terá outro nome, se é que tem nome, não há evidências de que gere menos satisfação profissional.
Diante disso, como poderemos dizer se há ou não demanda social? Se definirmos o termo pela existência de empregos com o nome do diploma, há varias décadas não há demanda social nem para 10% dos cursos superiores. Se admitirmos que pode sobrar gente sem um determinado emprego, qual a proporção mágica acima da qual não haverá demanda social? Por outro lado, e as outras ocupações que requerem diploma superior, mas não curso específico? São muitas centenas. Teríamos de criar um curso superior para cada uma?
As conclusões são inevitáveis. Não há critério prático para dizer se há ou não demanda social - de resto nem para dizer o que é isto.
Os trechos abaixo foram retirados do Texto II, tendo sua pontuação modificada com o acréscimo de um sinal de dois pontos (:). Assinale a opção em que este sinal NÃO se mostrou adequado.