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Etimologia e catimbas
Umas das coisas mais divertidas que existem é descobrir a origem das palavras. Está bem, há coisas melhores, como cinema, literatura, futebol e bala de alcaçuz. Mas a etimologia fica, vá lá, entre as mil coisas mais divertidas.[...]
No futebol, há várias palavras que ninguém nunca se pergunta de onde vieram. Por que, por exemplo, o goleiro é chamado de arqueiro? Não é porque Robin Hood gostava de pegar no gol. É porque os primeiros jogos nas universidades inglesas usavam as arcadas como traves. Logo, quem ficava entre elas era o arqueiro.
E de onde vem a palavra “drible”? Eis aí uma bela dúvida e que causa polêmica no mundo acadêmico. Segundo Maurício Arruda, etimologista brasileiro, a palavra tem origem africana e vem, mais especificamente, da palavra “dibo”, que significa dançar. Porém, para o célebre latinista lusitano Frederico Siqueira, a palavra é uma corruptela do verbo “deribare”, que significa andar feito um bêbado. Provavelmente, a comparação vem do fato de que os bêbados, como os dribladores, nunca nos deixam saber para que lado será seu próximo passo.
Já “gol” viria de “God”, palavra anglo-saxônica para Deus. No começo, as pessoas falariam “thank you, God” a cada tento marcado. Depois, passaram a falar apenas “God”, e este foi se metamorfoseando até chegar ao atual “gol”. Mas há outra vertente que acha que a palavra não nasceu da boca da torcida do time que fez o gol, mas sim da que o levou. Dessa forma, “gol” teria vindo do “gow”, corruptela de “oh”, interjeição galesa que indica dor, pesar.
Quanto ao verbo “marcar”, teria sido usado pela primeira vez em 1917 pelo famoso zagueiro ponte-pretano Orelha de Cobra. Depois de levar um drible por baixo das pernas, ele teria dito: “Vou marcar aquele desgraçado!”. Na jogada seguinte, Orelha de Cobra usou o verbo “marcar” em seu sentido original, ou seja, deixar marcas ou fazer cicatrizes, e quebrou a perna do atacante. Só depois o verbo assumiu o sentido de “jogar próximo ao adversário, não deixando que ele evolua livremente”.
E quanto a “tocar”, que significa “passar a bola para outro jogador”, vem do latim “tocare”: tocar música. O termo foi usado pela primeira vez em 1921, quando o Vasco da Gama fez uma partida tão deslumbrante que um comentarista disse que o time não tinha jogado, mas sim tocado como uma orquestra.
Há também a palavra “firula”, usada para indicar uma jogada desnecessária. Como sabem os que entendem um mínimo de costura, “firula” é um ponto de bordado muito difícil de fazer, porém, sem nenhuma função estrutural no conjunto do bordado. Como essa palavra migrou da costura ao futebol é que é o mistério.
E por fim há a expressão “catimba”, utilizada quando um jogador usa de expedientes desonestos para enrolar o rival e segurar o placar. Pode também ser usada no sentido de “faltar com a verdade”, que é o que fiz no texto de hoje.
(José Roberto Torero. Folha de S. Paulo, Esporte, 19/9/1998)
“Depois, passaram a falar apenas “God”, e este foi se metamorfoseando até chegar ao atual “gol”.” No trecho sublinhado, o uso da vírgula tem o mesmo motivo que em: