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Aquela hora que você disse eu não estava lá; viajei no sábado, começando por Niterói. Que ar existe nessa praça Martim Afonso que eu conheço de tão antigamente e sempre me parece prestes a explodir em paralelepípedos e bondes? Nunca ninguém se demora ali. Há apenas transeuntes que a atravessam com a inquietação dos atropelamentos, a praça é feia, todas as pessoas se encaminham penosamente para uma condução, porém há sempre outros veículos que chegam primeiro e custam a passar e entrementes um outro casal toma um táxi, parte um ônibus para a esquerda, a direita ou os fundos, os cafés estão sempre cheios de gente com pressa, há sempre um garçom discutindo com outro e uma fila para barcas e lanchas e todos têm pressa em se retirar como se temessem algo desagradável. Esse algo desagradável é a explosão dramática da praça, com anúncios em gás néon rebentando, os fios saltando, os motores soltando ondas de fumaça negra que fabricarão em pleno sol uma noite cortada pelo colorido espantoso do incêndio de uma dessas eternas barracas de fogos juninos.
Essa iminência dramática jamais cumprida da praça Martim Afonso nos faz saudar com certo respeito os batedores de carteira e os mascates, nossos prováveis companheiros de catástrofe, pois sempre em Niterói encontramos uma cara conhecida que nunca lembramos de onde e no fundo não é conhecida em absoluto; subitamente o mar sujo e escravo começa a dar bofetadas raivosas na pedra como um amante irritado – lapt, lapt, lapt – e ao mesmo tempo desce um calor tão grande que as crianças de colo começam a chorar, as mães dão palmadas nos mais crescidinhos que no meio daquela aflição querem comprar um sorvete que significaria a perda do bonde e a perdição definitiva da alma dessas pessoas comumente carregadas de embrulhos – por que, Senhor, se carrega sempre tanto embrulho na praça Martim Afonso em Niterói? – e há diariamente dezenas de embrulhos que são esquecidos nas barcas, lanchas, bondes, ônibus, lotações, balcões de mármore dos cafés onde aparelhos metálicos enviam jatos de vapor, as colherinhas caem no chão e o garçom não traz o troco e um sujeito quebra os óculos e comemora um caso com um rápido palavrão que faz com que o menino de cinco anos o olhe com certa estranheza pensando “é feio o pai dizer isso”.
Depois, amor, depois me arremessei através de tudo, ergui os fios dos bondes e passei, arrebentei os motores dos ônibus e passei, derrubei guardas e cavalos, venci uma barragem de morteiros chineses e passei, atropelei mulher gorda e passei, ainda que suado e molhado, apedrejado de insultos eu passei, pisei na gravata preta de um chauffeur e passei – eu estava terrível e surpreendentemente rápido como se os paralelepípedos fossem de borracha ou de fogo, eu abri caminho de cara fechada e brandindo um pesado embrulho cor-de-rosa, eu perdi oitenta e três cruzeiros, minha paciência caiu três metros além dos últimos limites e quebrou o pescoço e eu passei.
Depois, amor, séculos depois, houve um silêncio e uma brisa fresca junto do bambual entardecendo. Meus braços voltaram docemente aos meus ombros; tirei do bolso um lenço tão limpo, tão branco, fiquei sentado no chão, triste, feliz, pensando em ti. Sereno.
De acordo com o texto, analise as assertivas abaixo.
I. O narrador deixa claro que conhece a praça há muito tempo e sabe que nunca ninguém se demora ali porque há uma maldição que a ronda.
II. O fato de as pessoas estarem sempre com pressa faz com que elas acabem esquecendo seus embrulhos.
III. No último parágrafo, pode-se observar uma antítese em: “ [...] fiquei sentado no chão, triste, feliz, pensando em ti. Sereno.”.
É correto o que se afirma em