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TEXTO 3
Em uma noite dessas, sonha consigo mesmo cindida em duas, aquela que ora se mira, adulta, parecendo prestes a descobrir algo; e outra, muito criança, chorando sentada no chão de uma sala. No sonho, toma a si mesma nos braços, e o contato das suas duas peles faz com que acorde em uma terceira pele, a da vigília, arrepiada de frio. Pela primeira vez em muito tempo, deseja, então, regressar a Belém, rever a avó, conversar com ela sobre aquela difícil infância que vivera e saber por que o apagamento da herança indígena da família da mãe tinha sido necessário e tão eficaz. O porquê da família paterna, embora de pele branca, ter optado por renegar a própria condição de mestiça. Coisas que talvez a avó nem mesmo pudesse dar conta de responder. Reencontrar rastro e rosto era o que faria se fosse possível, mas a morte da mulher que a criara, ciosa e feroz em sua obrigação de afeto, rompera o último laço que a mantivera presa àquela cidade, àquela casa.
No trecho retirado do romance publicado pela escritora brasileira Micheliny Verunschk em 2021 (texto 3), o desdobramento da personagem em diferentes peles representa literariamente a perspectiva contemporânea de uma identidade