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Meninxs, eu vi!
Sírio Possenti
1 A pretexto de incluir todos os gêneros, o colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro,
2 passou a adotar, em comunicados oficiais, uma grafia que elimina Os e As em palavras
3 como “alunos” e “alunas”, substituindo essas letras por X: “alunxs”. A opção faz parte de
4 uma pletora de casos em que se pretende corrigir aspectos da língua e de textos,
5 supostamente por serem ofensivos, excludentes ou inexatos.(...)
6 A norma do colégio D. Pedro II propõe uma escrita artificial (não foi inventada no
7 colégio) que evitaria discriminação. A solução tem vários problemas, a despeito das boas
8 intenções – o inferno, como se sabe...
9 A primeira questão, obviamente, é como ler estas palavras (nem preciso explicar o
10 problema). Ou se quer que sejam apenas vistas ou lidas em voz baixa (como alun@s)?
11 Já o problema de fundo é a própria questão de gênero, ou seja, a relação biunívoca
12 que haveria entre gênero gramatical e gênero social (o antigo sexo). É fácil ver que nem
13 sempre esta relação se mantém. ‘Lua’, ‘cisterna’, ‘arte’, ‘galho’, ‘intelecto’, e acho que
14 também ‘anjo’, nada têm a ver com sexo. A questão só se torna potencialmente
15 problemática quando se trata de humanos. Mas considere ‘criança’...
16 No entanto, animais podem servir como passagem de um extremo a outro. Quando
17 dizemos “bois”, discriminamos as vacas? É sexismo falar ‘dos’ tigres de Bengala e ‘dos’
18 ursos polares? Acho complicado.
19 É comum que se fale de animais genericamente por meio da palavra
20 gramaticalmente masculina: (carne de) porco, (asa de) frango, (costela de) boi etc.
21 Quando se trata de humanos (as mulheres são humanas, nesta versão do
22 politicamente correto?), em certa medida, a questão é a mesma: a palavra gramaticalmente
23 masculina designa o gênero (no sentido relacionado a espécie); a palavra feminina designa
24 uma parte, uma parte específica. “Os alunos devem...” refere-se a todos os discentes; “as
25 alunas devem”, só às discentes do sexo feminino. O problema não são as formas “alunos” e
26 “alunas”, mas o que se diz que devem...
27 Uma coisa é lutar para que certas palavras marcadas negativamente sejam trocadas
28 por outras, mais amigáveis. Outra é querer resolver o problema no interior da gramática.
29 Palavras marcam certas culturas. Eventualmente, culturas definem seu gênero:
30 ‘arte’ é feminino em português (a arte), masculino em espanhol (el arte). Não é fácil
31 sustentar que, em um caso, se trata de feminino ou de masculino para além do gênero
32 gramatical. É um fato neutro, provavelmente, quanto a qualquer laivo de sexismo.
33 Mas a tese a ser levada em conta é a de John Martin. (...) Sua tese é que não há
34 masculino e feminino em português, mas apenas palavras marcadas e não marcadas
35 quanto ao gênero. O que impressiona em sua breve e certeira argumentação é que se usam
36 formas masculinas tanto relacionadas a nomes não femininos (“Pedro é alto”) quanto em
37 todos os casos em que não há nome com o qual relacionar, por exemplo, um predicado:
38 “navegar é preciso” (nunca ‘precisa’)
39 “aqui faz frio” (nunca ‘fria’)
40 “aqui é bom” (nunca ‘boa’)
41 Que não se diga que “navegar” é masculino. Por favor. Uma boa causa, como o
42 feminismo e a igualdade de gêneros, merece argumentos melhores.
Embora não exista um conectivo marcando a relação entre os enunciados “Palavras marcam certas culturas” e “Eventualmente, culturas definem seu gênero: ‘arte’ é feminino em português (a arte), masculino em espanhol (el arte)” (l. 29 a 30), pode-se inferir que o