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QUANDO SE É JOVEM E FORTE
Uma vez uma mulher me disse: vocês jovens não sabem a força que têm.
Aquela frase me fez olhá-la de onde ela falava: do lugar da não-juventude. Ela expressava seu encantamento a partir de uma lacuna. Se colocava propositadamente no crepúsculo e com suas palavras me iluminava.
Outro dia a frase irrompeu silenciosamente em mim como coroamento de uma cena. Uma cena, no entanto, trivial.
Estávamos ali na sala de um apartamento e conversávamos. Um grupo de colegas, digamos, de pessoas maduras. Cada um com seu copinho de uísque na mão, conversando negócios e banalidades. De repente entra pela sala uma adolescente preparando-se para sair. Entra como faz toda adolescente: pedindo à mãe que veja qualquer coisa em seu vestido ou lhe empreste uma joia. E quando ela entrou tão naturalmente linda, não de uma beleza excepcional, mas de uma beleza que se espera que uma jovem tenha, quando ela entrou, um a um, todos foram murchando suas frases para ficarem em pura contemplação.
“Poderia argumentar que vestida assim ela parecia uma Grace Kelly, um cisne solicitando adoração. Mas se assim é, por que a mesma cena se repetiu quando entrou outra irmã, impromptamente, de jeans, vinda da rua, espalhando brilho nos dentes e vida nos cabelos?
Olhava-se para uma, olhava-se para outra. Olhava-se para os pais que orgulhosos colhiam a mensagem no ar. E surge a terceira filha, também adolescente com aquela roupa displicente que, em vez de ocultar, revela mais ainda juventude.
Esta experiência se repete quando numa família são apresentados os filhos jovens. Igualmente quando se entra numa universidade e se vê aquele enxame de camisetas, jeans e tênis gesticulando e rindo entre uma sala e outra, entre um sanduíche e um livro, sentados, relaxados, namorando sob as árvores e na grama, como se dissessem: eu tenho a juventude, o saber vem por acréscimo.
Infelizmente não vem. E a juventude se gasta. Como as pedras se gastam, como as roupas se gastam, se gasta a pele, embora a alma se torne mais densa ou encorpada.
Algo semelhante ocorre diante de qualquer criança. Para um bebê convergem todas as atenções na sala. Sorrisos se desenham nos rostos adultos e o ambiente é de terna devoção. É a presença da vida, que no jovem parece ter atingido seu auge.
Claro, há jovens que são foscos e velhos e velhos que são radiosos adolescentes. Não é disto que falo.
Estou falando de outra coisa desde o princípio. Daquela frase que aquela mulher depositou na minha juventude e agora renasceu.
Gostaria de doá-la a alguém. Penso nisto e a porta se abre. Irrompem, lindas, minhas duas filhas. Extasiado lhes dou um beijo e digo: – Filhas, vocês não sabem que força têm.
(Affonso Romano de Sant’Anna. Porta de colégio. São Paulo: Ática, 1995. p. 39-42.)
Analise as afirmativas referentes a texto: I - De acordo com o texto o preço que se paga para obter o saber é o amadurecimento, o envelhecimento.
II - A relação entre juventude e maturidade é contraditória, porque, quando se é jovem, não se tem consciência do valor da juventude; quando se é maduro, chega-se a essa consciência, mas, então, não se tem juventude.
III - Foi preciso que o autor chegasse à maturidade para que as palavras da mulher fizessem sentido para ele.
Quais afirmativas estão corretas?