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Nos últimos tempos, uma doença dos olhos vinha me incomodando além da conta, de maneira que ler se tornava muito difícil. E tudo se agravava quando tinha que revisar meus textos, pois, além dos problemas de vista, minha grafia se tornava cada vez pior. Eram garranchos que eu mal podia entender e que não ousava enviar para o Ministério ou para os editores. Nos bons tempos, era Carolina, com a paciência de sempre, quem me passava tudo a limpo, mas, agora, com os males dela, não tinha coragem de lhe pedir uma coisa dessas. Foi, então, que tive a ideia de testar o Hermenegildo. Trepado numa escada, ele arrumava os tomos de uma enciclopédia nas alturas de uma estante.
– Hermenegildo, venha cá um instante.
Ele desceu, limpando as mãos no pano de espanar.
– Pois não, Sr. Machado.
– Como é o seu cursivo?
– O meu cursivo? – perguntou, coçando a cabeça.
– Sim, a sua letra.
– Acredito que não seja ruim, Sr. Machado.
– Então, escreva alguma coisa aí – disse, estendendo-lhe um pedaço de papel e uma pena, para avaliar o seu cursivo.
Ele pensou um pouco e redigiu. Peguei a folha de papel e vi que ele havia escrito versos de “Navio negreiro”, de Castro Alves.
– Ah, então, gosta de poesia? – admirei-me, ao ver que ele reproduzia de cor os versos.
– Gosto muito, Sr. Machado.
Vi que ele tinha um belo cursivo, o que o tornava muito capaz de passar a limpo o documento.
– Tenho uma tarefa para você. Vá até a sala de jantar, sente-se e copie isto para mim. Faça com capricho, mas lembre que tenho um pouco de pressa.
Meia hora depois, ele voltava com o documento, copiado sem nenhum erro, em que tive apenas que apor minha assinatura.
– Meus parabéns, Hermenegildo!
– Obrigado, Sr. Machado. Quando precisar, é só falar – disse, com satisfação.
– Não tenha dúvidas, logo, logo, precisarei de novo de seus préstimos.
De fato, vinha elaborando um romance, intitulado Esaú e Jacó, e as dificuldades com a minha letra impediam-me que trabalhasse a contento com a revisão. Às vezes, ficava empacado numa página, por conta dos garranchos que rabiscara e que não conseguia, de forma alguma, traduzir. Tomei uma decisão: seria o Hermenegildo a passar a limpo as páginas de Esaú e Jacó. Foi o que lhe propus uns dias depois: – Queria que fosse passando a limpo este meu romance – e completei com uma risada: – Como poderá ver, está quase ilegível.
Assinale a alternativa correta.