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Trânsito lento é o novo normal
Por Antônio Carlos Macedo
O motorista liga a seta, indicando que pretende entrar na faixa da direita. O vizinho ao lado, em vez de ceder espaço, acelera para bloquear a manobra. Na sinaleira, mal o sinal abre e a buzina já ecoa, impaciente, mesmo que todos saibam que o barulho não fará os carros andarem mais rápido. Diante da faixa de pedestres, raros são os condutores que cedem a passagem. Quem arrisca parar se expõe ao risco de uma batida na traseira por um motorista distraído e/ou apressado. Em meio à lentidão, o motociclista, irritado com a falta de espaço, chuta o retrovisor de um automóvel.
Parece que a hostilidade das redes sociais migrou para o asfalto. O trânsito, espaço de interação contínua, tornou-se palco de reações cada vez mais irracionais. Motoristas estão levando para o volante as frustrações do cotidiano, transformando o deslocamento diário em um campo minado de estresse e agressividade.
A verdade é que o quadro mudou — e muitos ainda não se deram conta disso. A frota de veículos explodiu nas últimas décadas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, circulavam 2,6 milhões de carros em 1997. Hoje, são 7,6 milhões — um aumento de 5 milhões em apenas 28 anos. Só em 2024, foram emplacados 198.804 novos veículos no estado. Se colocados em fila, ocupariam 795 quilômetros — distância maior que a entre Porto Alegre e Curitiba. Enquanto isso, a malha viária permanece praticamente a mesma, com melhorias pontuais incapazes de acompanhar o crescimento da frota. Mas muitas pessoas ainda saem de casa esperando a circulação tranquila de anos atrás. Ao se depararem com a tranqueira, a frustração se transforma em fúria, que se espalha como um vírus entre os condutores.
Diante desse cenário, a única saída é a adaptação. Precisamos aceitar que trânsito lento é o novo normal. A irritação e a agressividade não vão fazer os veículos andarem mais rápido. Pelo contrário, tais reações apenas aumentam o risco de acidentes e brigas. A situação não permite mais o luxo de ser impaciente. Ou a gente se adapta, ou viveremos em constante guerra. O trânsito não vai melhorar, mas a maneira de encará-lo, sim.
O objetivo comunicativo central do texto é: