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Os últimos dias de Dalton Trevisan
Por Felippe Aníbal
A agente literária Fabiana Faversani posicionou seu notebook em uma mesinha ao lado da cama de Dalton Trevisan – e deu play no filme Amarcord, de Federico Fellini. Apesar de ser um dos prediletos do contista de 99 anos, ele logo se cansou, interrompendo a sessão. Nem prestou atenção à trilha musical de que tanto gostava, assinada por Nino Rota. Horas antes – naquele mesmo sábado, 7 de dezembro de 2024 –, com a saúde fragilizada, Trevisan havia recebido a visita de seu médico, João Carlos Folador. Diante da agente, o escritor comunicou ao médico, em tom sóbrio, uma decisão sobre a própria morte. Ele disse: “Não quero mais, tô cansado... Quero ter uma morte tranquila, quero ter uma morte em casa”, conta Faversani.
No dia seguinte – o domingo, 8 de dezembro –, Trevisan passou a maior parte do dia dormindo, ainda mais abatido. Os enfermeiros disseram a Faversani que a respiração do paciente estava excessivamente fraca, o que já caracteriza um quadro agônico. Foi respeitado, porém, o desejo dele de permanecer em casa. Em determinado momento, Trevisan recobrou o fôlego e perguntou: “Estou desaparecendo?”. Foram suas últimas palavras, segundo a agente. O escritor morreu por volta de 18h30 de segunda-feira, 9 de dezembro de 2024, no apartamento em que morava havia três anos e meio, em Curitiba.
Cerca de um ano e meio antes de sua morte – em 16 de junho de 2023 –, Trevisan deixara registrada em cartório uma declaração com suas últimas vontades. Orientou que Rikinha – sua cachorra, da raça dachshund – deveria ficar sob guarda da sobrinha (a cadelinha, no entanto, morreu meses depois do registro do documento). Também apresentou diretrizes práticas, pedindo que não houvesse qualquer cerimônia fúnebre. Escreveu: “Não quero velório, nem caixão aberto”. Acrescentou que não queria “padre nem missa de sétimo dia”, que queria ser cremado e que suas cinzas fossem espalhadas entre as raízes dos cedros da casa onde viveu por 68 anos.
Trevisan quis se manter longe dos holofotes mesmo após a morte. Recomendou que houvesse “a menor publicidade possível sobre o falecimento, de preferência sem nenhuma notícia”. Foi difícil, no entanto, cumprir esses desígnios. O ex-prefeito de Curitiba e sobrinho do contista, Gustavo Fruet, escreveu em suas redes sociais: “Até o anúncio de seu falecimento entrará para as lendas do Vampiro!”, aludindo ao epíteto pelo qual o escritor ficou conhecido.
Sobre o texto, assinale a alternativa correta.