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Professor desde o pré-nascimento
Por Tiago Pellizzaro
A minha carreira como professor começou antes de eu vir ao mundo, pois não acredito que tenha sido por sorte do destino que me vi impulsionado a fazer essa escolha profissional. Meus pais não eram professores, porém tinham uma grande abnegação pelo estudo. Quando mudei a vida deles com a minha chegada, muitos dos sonhos que eles carregavam foram projetados na criaturinha que aos poucos aprendeu a ouvir, a responder a estímulos visuais, a engatinhar e a falar. É mister chamar a atenção para alguns processos cognitivos instaurados na minha tenra idade de forma bem peculiar. Nasci em 1978, dois anos antes de ser realizado mais um senso demográfico pelo IBGE. Assim que os dados desse trabalho colossal foram oficializados, a Melhoramentos lançou um atlas geográfico. Então, minha mãe, ao mesmo tempo em que me segurava no colo, abria na minha frente aquela publicação gigante, e meus olhos percorriam vorazes os mapas continentais e nacionais, as bandeiras dos países, os gráficos populacionais, os oceanos, mares e rios, e tantas outras curiosidades reunidas naquela excitante avalancha informacional. Geografia era uma das minhas matérias preferidas. Por que será?
Além disso, aos cinco anos, ganhei de presente dos meus pais um baralho. Naquele tempo, não havia as facilidades eletrônicas de hoje, esses jogos incrivelmente dominados pelas crianças que mexem em celulares com a mesma naturalidade com que um cozinheiro prepara uma saborosa receita. E sabe o que fiz para me divertir com aquele sensacional brinquedo? Eu utilizava até quatro cartas por vez, dispondo-as de modo a ficarem uma ou duas em cima e uma ou duas embaixo, e dessa maneira ensaiava o domínio das operações matemáticas. Apesar de não atuar com as ciências naturais e exatas, nunca obtive desempenho ruim avaliações relacionadas disciplina que é mãe dessas ciências. Mas as cartas algo a ver com essa queda minimamente demonstrada para a matemática?
Antes de responder, permita-me recordar que, em 1985, uma greve do magistério público do Rio Grande do Sul interrompeu as aulas por 60 dias. Para quem estava ingressando na primeira série do antigo 1º grau, tratava-se de momento crucial para sedimentar a experiência da alfabetização. Não se dando por vencida, minha mãe abarrotou de desenhos o meu caderno, inserindo, ao lado de cada figura, a designação a ela correspondente. Resultado: aprendi a ler e a escrever antes dos meus colegas, pois, no teste que evidenciava se era real tal conquista, levantava corretamente o pedaço de papel que continha a palavra pronunciada pela professora. É válido ressaltar que os guias telefônicos foram meus grandes companheiros daquela época. Eles me introduziram no mundo do letramento, juntamente com as clássicas histórias infantis que lia e ouvia, ao rodar pequenos discos de vinil de uma coleção que trazia a narração do Sílvio Santos. Como se não bastasse, eu ia até a banca comprar revistas em quadrinhos, logo depois meu pai adquiriu os 15 livros do Sítio do Pica-Pau Amarelo, e não demorou muito para ele me agraciar com a Barsa. Com todos esses incentivos, eu só poderia ser das Letras, mesmo que ele planejasse para mim uma trajetória como contador ou advogado.
Somos, sim, fruto de nossa constituição biológica, porém lapidados e muito pela interação que estabelecemos com o outro. Por isso, todos os produtos culturais mencionados exerceram influência destacada em minha formação, mas é evidente que também os meios de comunicação, a convivência escolar, a amizade com os vizinhos e a participação em outros grupos interferiram sobremaneira na (re)definição da minha identidade, sem contar uma série de elementos bastante difícil de ser relacionada. Logo, comprova-se a tese de que não sou professor apenas a contar do momento em que assumi o comando da primeira aula diante de uma turma, senão desde que fui capaz de assimilar a primeira experiência que a vida me proporcionou. E assim é até hoje, e assim será. Sou um professor modificado paulatinamente a cada dia.
A tese defendida pelo autor em relação a como se constitui a formação de um profissional docente é fundamentalmente baseada em: