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Move Fast and Break Things. O que pode dar errado?
Por Denis Russo Bugierman
Um dia, nossos descendentes – em os havendo –, vão estudar na escola o que aconteceu no mundo na nossa época. Talvez esse capítulo do livro de História deles possa começar com a citação da frase de Mark Zuckerberg, que expressa sua filosofia de vida: “Move fast and break things”, “Avance rápido e quebre coisas”. Difícil pensar numa frase que expresse de maneira mais completa o espírito dominante do nosso tempo.
Zuckerberg tem vivido precisamente desse modo. Sua genialidade se revelou ainda na faculdade, que ele nem terminou porque já era bilionário. Sua empresa, o Facebook, proprietária também do Whatsapp e do Instagram, mudou as relações humanas talvez tanto quanto qualquer outra grande revolução da história. No caminho, inegavelmente, ela quebrou coisas.
Zuckerberg não é o único a viver dessa forma nos nossos tempos. Na verdade, é seguro dizer que a imensa maioria das pessoas que comandam o mundo hoje movem-se rápido, de olho em resultados trimestrais, ou campanhas eleitorais quadrienais, e quebram coisas no caminho.
Há uma longuíssima lista de coisas que se quebraram ao longo do último século, enquanto a humanidade acelerava seus sistemas, característica mais marcante da era industrial, que se encerra enquanto escrevo.
Este ano, a 9ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, que está online, incluiu na sua programação quatro filmes que não parecem muito ser “filmes ambientais” – são documentários sobre tecnologia. Os quatro mostram consequências humanas de novas tecnologias enquanto elas avançam a toda velocidade.
Como serão as crianças criadas por robôs? Ou as projetadas a partir dos óvulos e espermatozoides encontrados no mercado? Como será a idade adulta das celebridades de redes sociais e de seus fãs com os rostos sempre enfiados nas telas de celular? Como será o mundo todo uberizado, sem nenhuma preocupação com a amanhã?
Nenhuma das respostas é simples, mas algo aparece com clareza: coisas irão se quebrar – já estão se quebrando. Essas novas tecnologias estão gerando oportunidades e possibilidades, mas também uma montanha imensa de sofrimento e devastação. E tecnologias ainda mais novas já vão chegando atrás delas, mudando ainda mais radicalmente o ambiente, sem que antes paremos sequer para pensar nas consequências.
Claro que o sentido disso tudo muda em meio a uma pandemia, quando subitamente estamos tendo que parar de nos mover rápido. Agora, qualquer imagem banal de gente se abraçando na rua, misturando os hálitos, já gera um turbilhão de emoções. Afinal, a pandemia também é, evidentemente, sintoma de que algo se quebrou enquanto acelerávamos. Pestes são, por definição, desequilíbrios ambientais. Passamos o último século focados em aumentos de produtividade e em disrupções nos jeitos tradicionais de fazer todas as coisas, ao mesmo tempo em que desvalorizávamos todos os sistemas de cuidado coletivo na nossa sociedade. Pelo jeito, chegamos a um limite.
O que me parece que teremos que mudar é o descuido com as coisas que quebramos no caminho. Caso queiramos continuar nos movendo rápido, teremos que dedicar ao menos parte da humanidade ao trabalho de consertar o que se quebra e de buscar caminhos menos destrutivos. Só será possível viver numa sociedade inovadora e tecnológica se tivermos sistemas fortes de proteção e cuidado. Sem eles, esse estado de disrupção permanente vai acabar nos matando – e matando o planeta.
O fato é que não dá para imaginar um futuro muito promissor para a humanidade se ela continuar inteiramente nas mãos de indivíduos, cada um deles movendo-se rápido e sem olhar para trás, para checar se quebrou alguma coisa. Estamos desprotegidos contra o que pode dar errado – e, na velocidade em que estamos, é quase inevitável que algo dê errado.
Quando nossos descendentes estudarem o período histórico que estamos vivendo hoje, espero que o capítulo que talvez se abra com a frase de Zuckerberg feche-se em 2020. E que algo diferente – e menos destrutivo – comece em seguida.
Assinale a alternativa que indica uma conjunção que poderia substituir, na linha 38, a palavra “Caso” sem alteração de sentido e da estrutura original do período.