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O futuro da cultura na era dos computadores
O professor e especialista em política cultural Teixeira Coelho discute o que pode acontecer com cultura e a arte em um mundo polarizado e dominado pelas novas tecnologias
Revista: Com a globalização, imaginamos um mundo em que as culturas regionais seriam soterradas por manifestações de potências como os EUA. No entanto, parece haver um leve renascimento e uma diversificação da identidade cultural. As redes sociais diluíram um pouco dessa influência massificadora?
TC: Eu chamo essas redes de antissociais, porque elas promovem a divisão, o ódio e a situação do 50-50, dois grupos que se opõem frontalmente. Temos como exemplos o Brexit, os Estados Unidos e o Brasil.
Não sei se houve uma diluição da influência da indústria cultural. Se pesquisarmos serviços de streaming de vídeo, podemos encontrar uma série finlandesa, sueca ou até brasileira, mas a média dos produtos é bastante codificada. Sim, é possível ter uma brecha para manifestações diferentes. Isso aconteceu, por exemplo, com a E. L. James, que escreveu 50 Tons de Cinza. Ela pulou as barreiras da editora, da distribuição, da livraria e da crítica e entrou no mercado. O que nós ganhamos com seus livros eu não sei, mas ela ganhou muito. Não discuto que essas brechas podem vir a ser usadas de maneira criativa, mas não é o que acontece no momento.
Todo mundo ficou muito entusiasmado com a internet pela possibilidade de transgredir as barreiras e a censura dos estados, só que isso não aconteceu. Às vezes, não temos uma censura política ou religiosa, mas batemos de frente com uma barreira econômica. Ainda estamos na infância desse instrumento novo e sem uma noção clara de para onde vamos. Hoje é possível fazer o seu filme e colocar no YouTube. É fácil. Só não sei se o saldo da iniciativa aponta para a diversificação das manifestações artísticas. A globalização não conseguiu pasteurizar tudo, mas também não temos a liberdade que pensamos que teríamos no início.
Revista: A obra de arte vai sobreviver novidades tecnológicas, vai continuar contundente e questionadora ou pode se tornar mais massificada e inócua?
TC: A questão é saber se a arte que conhecemos na modernidade da civilização ocidental, crítica e questionadora, vai continuar a existir. O questionamento está sendo cerceado. Um desafio para a arte, por exemplo, é o politicamente correto. Não só a censura exterior continua existindo, mas há também a censura interior do artista. Aquela arte que veio tona no final do século XIX estava livre do Estado, da igreja, dos partidos políticos e do comprador burguês. O pintor Monet, por exemplo, passou a fazer o que queria. Se alguém comprava uma obra dele, ótimo, se não, tudo bem. Ele tinha condições de fazer isso, claro, mas esse tipo de arte, que tem a função de fazer as pessoas pensarem, corre perigo de desaparecer.
Os exemplos do que é chamado de arte tecnológica hoje não vão muito além de um passatempo intelectual desenraizado. Os instrumentos tecnológicos atuais não impedem que a arte continue a existir. Mas os primórdios dessa arte digital ou computacional não possuem resultados nem próximos de algo como um Picasso, um Monet, ou a arte dos Estados Unidos dos anos 1960, que era extremamente questionadora.
Revista: A maneira como tomamos decisões é cultural. Escolhemos uma coisa porque aprendemos que é melhor ou mais ética do que outra. Uma máquina que toma decisões a partir de conceitos éticos "universais" será capaz de mudar nossa expressão cultural?
TC: A maneira como tomamos decisões é realmente uma questão cultural, de hábito. Não existem conceitos universais. E o livre arbítrio do ser humano é ilusão. Hoje, estão oferecendo empregos para quem conseguir "injetar" ética em um algoritmo. O grande problema dessa cultura computacional é que não existe como injetar uma ética de escolha em um algoritmo simplesmente porque a humanidade não é capaz de identificar ou de concordar quanto a seus valores. Não podemos esperar que a cultura computacional resolva um problema que não conseguimos equacionar no nosso dia dia.
A maneira como tomamos decisões pode mudar de acordo com nossas origens e com nossa etnia, por exemplo, e uma máquina de inteligência artificial poderá modificar isso. Só que não é algo que vá acontecer rapidamente. Se o mundo tiver tempo para que o processo siga seu curso, e não sei se temos esse tempo pela frente, é possível que haja uma homogeneização. Neste momento, porém, estamos elogiando a diversidade, que significa valores diferentes, conflitos e discórdia. A pergunta é: queremos culturas homogêneas?
Assinale a alternativa na qual o autor menciona um momento ou fato do mundo das artes sobre o qual ele está positivamente convencido acerca dos efeitos.