///
Era uma conta simples, mas a vendedora errou no troco e me devolveu mais do que deveria. Quando brinquei, argumentando que assim ela teria prejuízo, a moça recorreu imediatamente ___ calculadora, corrigiu-se e me agradeceu com uma argumentação curiosa: - É que eu sou “das humanas”. Bom, também não sou propriamente “das exatas”, mas tive a oportunidade e felicidade de aprender as quatro operações muito antes de fazer a minha escolha de curso superior. Como passei pelo Ensino Básico numa época em que não existia máquina de calcular e nem esses celulares que pensam por nós, também tive que encarar a decoreba da tabuada. Sei que atualmente muitos educadores condenam a memorização, mas é inegável que o método repetitivo me ajudou e ainda me ajuda nos cálculos elementares. Também não sou nenhuma sumidade no assunto. Se me perguntarem, por exemplo, sobre a hipótese de Riemann ou a conjectura dos primos gêmeos, que são desafios matemáticos para gênios, vou ter que responder como a menina da feira de orgânicos: - Sou das humanas! E, por ser das humanas, fico angustiado sempre que sai um estudo sobre o aproveitamento dos estudantes brasileiros nesta disciplina tão vilipendiada. A última pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), por exemplo, mostra que apenas 2% dos nossos alunos alcançam os níveis desejados de conhecimento na matéria. Antes da pandemia, já éramos um zero à esquerda em matemática. Depois, com todos os prejuízos causados pelo longo afastamento dos bancos escolares, parece que os jovens desaprenderam o que já não sabiam. Um desses engraçadinhos da internet, provavelmente “das humanas”, sintetizou bem a questão com uma frase irônica: “92% dos brasileiros são ruins em matemática, os outros 16% são péssimos!”. A propósito da pandemia, sempre é bom lembrar que foi o pessoal das exatas – cientistas, pesquisadores e médicos – que encontrou o alívio humano para o ____, na forma das vacinas. Voltando ___ educação, é evidente que carecemos de investimentos, professores preparados, busca ativa dos desistentes, aulas atraentes e reforço escolar para recuperar os conteúdos perdidos. Mas penso que, acima de tudo, precisamos mostrar aos estudantes que eles podem conviver bem com essa tal de matemática se deixarem de temê-la, de odiá-la e de rejeitá-la. Sim, essas reações são humanas. Mas, com afeto, persistência e muita prática, o desafio histórico dos números pode ter soluções adequadas. Talvez até exatas.
Os vocábulos “ela” (l. 02) e “-la” (l. 29), os quais estão destacados no texto, referem-se, respectivamente, a: