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Se fosse possível que habitantes de uma região e seus descendentes nunca adotassem termos de outros povos, o Brasil, colonizado por Portugal, não falaria português. É que o vocabulário da nossa antiga metrópole nasceu de uma vitória brutal do latim, a língua oficial do Império Romano, sobre o lusitano, o idioma falado na Lusitânia, território que se estendia entre os rios Douro e o Tejo – e onde viviam os ancestrais dos portugueses desde o Neolítico (10.000 a.C. – 4.500 a.C.).
Sem a incorporação da cultura de uma sociedade (muito) mais poderosa, quando Roma conquistou as tribos lusitanas em conflitos que se estenderam até 138 a.C., os portugueses que colonizaram o Brasil ainda falariam essa língua protoindo-europeia.
Bom, isso se os lusitanos também permanecessem imunes à riqueza cultural muçulmana. A invasão da Península Ibérica pelos mouros, a partir de 711, deu uma contribuição enorme à língua falada até hoje por portugueses e brasileiros. Você esbarra com ela sempre que diz “almofada” (al-muhhadâ), “azulejo” (az-zulayj), “açougue” (as-sūq), “enxaqueca” (ax-xaqiqa)… Ou seja, quem mandou e desmandou na região que hoje abriga Portugal, em diferentes períodos, trouxe consigo seus modos e sua língua – que os avós dos avós dos avós… dos nossos colonizadores adotaram.
O estrangeirismo, aliás, nem precisa de espada ou bomba para se estabelecer num território. Relações de comércio ou grande destaque internacional de um país acabam promovendo essa influência também. E é por isso que, antes que os Estados Unidos conquistassem admiração mundial, o brasileiro gostava mesmo era de imitar o francês.
A tradição cultural da França conquistou brasileiros de todas as classes sociais. Quando o Rio de Janeiro era nossa capital, a arquitetura francesa predominou nos edifícios fluminenses, marcados pelos estilos art nouveau e art déco. No centro da cidade, o Theatro Municipal foi inspirado na Ópera de Paris.
Então, a língua, claro, também foi influenciada. Quando pensamos em palavras de origem francesa na nossa língua, logo vêm à mente os termos relacionados à gastronomia: couvert, buffet, croissant, maionese (de mayonnaise), baguete (de baguette)… Mas essa influência deu muito mais ao nosso dia a dia.
Enfim, o Brasil era um país francófono, como boa parte do mundo. Até que a Europa foi destruída por duas grandes guerras no século 20, e os Estados Unidos tiveram espaço e dinheiro para lançar bombas atômicas culturais planeta afora.
Nos anos 1960, todo mundo queria assistir a filmes no drive-in e tomar milk-shakes. No século 21, vemos filmes no streaming (seja no notebook ou no home theater), devoramos cupcakes e bebemos nossas pints.
É isso: cada era com seu colonizador cultural. Talvez o próximo da fila seja a Coreia do Sul. Pois é. O BTS, maior boy band do país, é tão popular globalmente quanto Elvis Presley foi nos anos 1950 e os Beatles nos 1960. Adolescentes decoram letras em coreano com a mesma voracidade que memorizam letras em inglês.
Assinale a alternativa que indica a correta relação de sentido transmitida pela expressão sublinhada no trecho a seguir, retirado do texto: “Pois é. O BTS, maior boy band do país, é tão popular globalmente quanto Elvis Presley foi nos anos 1950 e os Beatles nos 1960”.