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O dia fatal
Por Martha Medeiros
Sempre que chega o fim do ano, um calafrio me percorre. “Passei por ele de novo”, penso.
Atravessei todos os 12 meses e cada um de seus dias, e um deles era ele, que, discreto, não se
fez notar. Percorri o dia da minha futura morte em plena vigência da vida. É sobre a vida que
pretendo falar, confie em mim.
Ele existe: o dia fatal. Porém, anônimo. Pode ser o 13 de abril, o 21 de junho, o 8 de
novembro ou qualquer outro dia do calendário 2022 que se descortina. Olho para todos os
próximos 365 dias e levo fé de que passarei por ele, mais uma vez, sã e salva, sem desconfiar
o ano (felizmente, indeterminado) em que ele não me deixará seguir em frente, me reterá para
sempre e formará, junto data do meu nascimento, a dupla mais importante da minha
biografia: o dia em que cheguei e o dia em que parti, inseparáveis na minha lápide. Que ele não
tenha o mau gosto de cair no mesmo dia que nasci, quero o privilégio de ter duas datas máster
para me chorarem.
Falta de timing dessa mulher, talvez o leitor esteja pensando. Em pleno entusiasmo da
virada, este assunto? Entenda, é apenas uma homenagem elegância da inocência. Todos os
anos, passo 24 horas vivenciando um dia que terá grande destaque no meu futuro, porém acordo
como se fosse uma data qualquer. Cumprimento o sol que avisto pela janela, tomo meu suco de
laranja, enrolo uma fatia de queijo numa fatia de blanquet de peru e engulo esse enroladinho
em pé mesmo, enquanto aguardo meu personal para uma hora de treino de força, confiante de
que isso me garantirá alguma longevidade. A inocência é muito camarada, nunca estraga nosso
prazer de fazer planos.
Antes que ele seja o último, será mais um dia comum. Escreverei um texto que não
mudará o mundo, talvez assista a um filme com o namorado e me preocuparei com trivialidades,
sem ter a mínima ideia de que estou passando por um outro tipo de aniversário, aquele que
jamais celebrarei.
O que isso tem a ver com a vida? Tudo. A vida só é bem aproveitada graças essa
única ignorância a festejar. Na inauguração de mais um ano, sinto como se eu tivesse a
eternidade toda para amar, para viajar, para lutar por mudanças necessárias, para fazer novos
amigos e com eles beber muito vinho. Para plantar uma muda de cipreste no jardim, acreditar
que o verei crescer e que ainda desfrutarei da sombra – pouca, cipreste não dá muita sombra,
convenhamos.
Prezo a generosidade deste desconhecimento fundamental, o segredo mais bem guardado
do universo, que nunca se revela a fim de que possamos percorrer sossegados a estrada adiante,
do contrário, paralisaríamos. É isso, a crônica esquisita é apenas para agradecer o mistério, esse
adorável condutor dos nossos sonhos.
Considerando o emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que completa, correta e respectivamente, as lacunas das linhas 09, 14 e 25.