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Em 2002, o arqueólogo Michel Brunet descreveu o crânio de um primata que viveu há 7 milhões de anos no atual território do Chade, na África. O Sahelanthropus tchadensis tinha um terço do volume cerebral humano e uma espessa arcada óssea sob as sobrancelhas. Lembrava, em certos aspectos, um chimpanzé. Mas com uma peculiaridade: o forame magno – buraco por onde a medula espinhal entra na cabeça – ficava na base do crânio, e não atrás, o que é um indício de postura ereta: a cabeça ficava em cima da coluna e não pendurada na sua extremidade. Isso torna o tchadensis o mais antigo membro conhecido da linhagem humana.
A história dessa linhagem começa mais ou menos há 8 milhões de anos, quando existia, na África, um macaco que não era nem chimpanzé, nem humano. Um dia, a população desse macaco foi dividida por uma barreira geográfica, talvez um lago. Com o tempo, graças diferenças de habitat, os macacos de cada lado do lago tomaram rumos evolutivos diferentes até se separarem de vez, isto é, não conseguirem mais fazer bebês entre si.
É assim que surgem novas espécies na natureza. Esqueça a imagem da escadinha – em que um chimpanzé torna-se, em passos sucessivos, um Homo sapiens. Ela está errada, porque os chimpanzés não são nossos avós: eles também são netos. Netos de um mesmo avô, que viveu há milhões de anos. Quando a população desse ancestral se dividiu, parte dela deu origem a nós, outra parte deu origem aos chimpanzés. Eles são só animais diferentes, que seguiram seu próprio rumo do outro lado de uma barreira geográfica. A evolução é apenas mudança, e não mudança em direção a um estado que nós consideramos mais virtuoso.
Isso não vale só para essa primeira divisão entre chimpanzés e humanos, mas também para todos os hominídeos intermediários que vieram depois. Pegue o exemplo do Homo erectus – um parente mais antigo do Homo sapiens que já era plenamente bípede, mas ainda tinha cérebro pequeno e mandíbula avantajada. Alguns erectus ramificaram-se e deram origem ao que somos hoje. Outros continuaram idênticos e dividiram espaço com o sapiens até 140 mil anos atrás. Nós não os suplantamos como se fossem iPhones desatualizados.
Hoje, após milhões de anos de divergência dos chimpanzés, tudo mudou. A seleção natural só funciona se nascem muitos indivíduos, e outros tantos morrem antes de se reproduzirem. Nos países desenvolvidos, ocorre o oposto: a taxa de natalidade só cai. Em 1970, havia 16 recém-nascidos para cada mil habitantes da União Europeia; em 2017, eram nove. E eles têm tudo que precisam. Com saneamento básico, residências aquecidas, exames pré-natais e vacinação obrigatória, problemas como diarreia, frio e doenças virais não são mais letais. Em 1900, 36,2% das crianças morriam até os 5 anos de idade; hoje, são 3,9%. Mesmo países assolados por secas, violência e corrupção, como Somália e Chade, têm taxas de mortalidade infantil de respectivamente 13,3% e 12,7%. Esses números são três vezes menores que a média mundial de apenas um século atrás.
Com a seleção natural estagnada, você pode pensar que a evolução do ser humano parou. Palpite errado: evolução e seleção natural não são a mesma coisa. Lembre-se: evolução é a maneira como as espécies mudam com o tempo, e a seleção natural é uma das forças que impulsionam a mudança. Há outras. (...)
O texto só NÃO permite concluir que: