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Todo dia é dia de falar sobre George Orwell
Eu penso em George Orwell de manhã, quando toca o despertador do celular e olho no fundo da câmera, por trás da qual bem poderia estar um Grande Irmão. Penso em George Orwell ao longo do dia, quando abro o noticiário e vejo a situação política global se tensionar, como se os países se fechassem em punhos, prontos a se esmurrar. Penso em George Orwell de noite, quando procuro na estante o que ler nos próximos dias.
Voltei a pensar em George Orwell com uma notícia recente: a versão em quadrinhos de sua Revolução dos bichos, feita pelo artista Odyr, ganhou o HQMix de Melhor Adaptação para Quadrinhos. Ainda não tive a chance de conferir o trabalho, mas qualquer iniciativa que nos faça falar de George Orwell é válida — trata-se de um dos escritores mais urgentes do momento, para todo o espectro político e todas as latitudes.
Antes de tudo, devido a sua obra. Não apenas Revolução dos bichos e 1984, tão clássicos que já correm o risco de ossificação, pisados e repisados a cada sinal de fechamento e escalada autoritária mundo afora; também os ensaios de Orwell merecem leitura.
Quem já estiver um pouco cansado de política, da face institucional dela, também encontra boas opções, que nutrem o pensamento e revigoram o espírito, em livros como Na pior em Paris e Londres e Como morrem os pobres e outros ensaios. O primeiro traz um relato das vivências de Orwell nas capitais francesa e inglesa, sem muito mais que uns poucos tostões e a necessidade de não sucumbir ao frio, à fome, à fadiga. Embora na superfície pareça tão diferente da ficção especulativa de 1984 ou da sátira política de Revolução dos bichos, o livro tem tudo a ver com a obra orwelliana, já que é seu ponto de partida, seu Big Bang: nele o autor elaborou seu olhar crítico, meio margem, e sua vontade de concretude, seja na linguagem, seja nas situações retratadas. Encontrou sua voz e seu ponto de vista.
Mais diversa e por vezes ainda mais direta, a coletânea de ensaios Como morrem os pobres mostra Orwell em grande forma, com textos potentes e de uma atualidade impressionante. Desde uma frase pontual (“Em nosso tempo, o discurso e a escrita política são, em grande medida, a defesa do indefensável”, como se lê em “A política e a língua inglesa”) até raciocínios mais gerais, o livro corre o risco de acabar todo rabiscado, páginas e páginas sublinhadas, anotadas e comentadas, como se o movimento incessante do lápis pudesse reverter as letras em voz, em busca de alguma luz, de alguma clareza para entender o mundo de Orwell, que ainda é o nosso em muitos aspectos decisivos.
Nem tudo é perfeito em Orwell, obviamente. Há comentários e pontos de vista que podem nos parecer problemáticos, ainda mais se não considerarmos o contexto. Em Como morrem os pobres, por exemplo, seu ensaio em defesa das lareiras a carvão soa questionável se o lermos de modo anacrônico, com as preocupações ecológicas de hoje, quando combustíveis fósseis se tornaram um fator evidente do colapso climático. Há outro aspecto problemático no ensaio: Orwell faz uma defesa tradicionalista, de um idílio familiar, com pai, mãe e crianças em torno da lareira, que parece meio piegas, ou acrítica, beira de um saudosismo potencialmente nocivo.
É por isso e por outras razões que penso em Orwell várias vezes ao dia, em geral, na forma de uma interrogação. Não me pergunto o que ele faria ou o que diria; seus textos estão aí, basta relê-los e ficar atento coerência para extrair conclusões. Penso em Orwell, mas penso em especial em suas circunstâncias: que escritor ele teria sido em outra época? Se tivesse vivido tempos menos turbulentos, menos cindidos, menos incendiários, ele teria escrito de outra forma? Penso em Orwell e percebo que sua figura embaralha essas perguntas e as deixa de lado, abrindo espaço para a que realmente interessa: como viver e agir altura dos desafios do tempo em que nascemos? Com que princípios, com que ferramentas?
A obra de Orwell é testemunha de sua resposta, com seu alcance e suas limitações; cada um de nós que responda por si.
(Henrique Balbi – Revista Época – 11/09/2019 – Disponível em: https://epoca.globo.com/ - disponível)
Considerando o emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas das linhas 21, 37, 40 e 44.