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Um amigo meu foi escalado pela rádio em que trabalhava para fazer cobertura de uma famosa rústica realizada em terras gaúchas numa manhã de domingo. Para ele, tratava-se de um dia da semana como outro qualquer. Por isso, como não podia deixar de ser, acordou muito cedo, preocupado em dar conta de mais um dia de labuta. Uma poderosa empresa da cidade era a promotora do evento, que reunia um expressivo número de corredores. Entre as providências tomadas para garantir o sucesso dessa ação de incentivo prática desportiva, uma ambulância foi colocada disposição dos participantes em caso de atendimento emergencial. Passaram-se poucos minutos após a largada para que os médicos tivessem de socorrer uma vítima de acidente vascular encefálico que estava envolvida no clima daquela disputa festiva. Curiosamente, o paciente não era nenhum competidor, e sim meu amigo repórter. Depois desse episódio que quase o fulminou, obviamente que ele não foi mais o mesmo. A vida dele mudou, e o conselho que deu dias depois de sua recuperação para um velho colega que estava sendo irremediavelmente arrastado para semelhante destino ressoou taxativo: “tira o pé”.
Transcorrido algum tempo, conheci um diretor teatral que, ao explicar para um artista como deveria encarar o palco e o público na hora dos shows, usou uma expressão extraordinariamente didática e que não pode ser mal interpretada: “o menos é mais”. Ambos os aconselhamentos convergem para o sentido de dizer que a energia humana tem um pico de consumo, assim como a demanda de eletricidade no período que compreende o final das tardes e o início das noites nas grandes cidades brasileiras. Nosso corpo e nossa mente possuem limitações a ponto de esgotarem sua força e sanidade quando há exageros, e é preciso reconhecer essa realidade. Nos Cadernos de formação, de José Kentenich, consta que o nadador precisa erguer a cabeça que se encontra submersa para poder respirar. Nenhum cantor consegue ficar horas e horas ininterruptamente pulando, correndo e agitando os fãs. Nem eles querem isso. Chega “incontinenti” o momento de interpretar uma música valorizando a troca de olhares, o caminhar num compasso relaxado e a suavização do ritmo. Da mesma forma, um indivíduo não funciona como uma máquina, que pode ser programada para suportar extensas jornadas em constante operação, e também não executa ideias brilhantes e criativas na velocidade da luz. A Síndrome de Burnout é o resultado de uma conta na qual “o mais é menos”, ou seja, o desgaste gera improdutividade, a pressão obsessiva leva à ineficiência e a ânsia pelo êxito redunda em fragorosa decepção. Não sofre apenas o trabalhador avariado, embora este seja o mais prejudicado pelas consequências diretas da patologia, mas igualmente o gestor taylorista por ignorar que o maior capital de que dispõe são os seus próprios colaboradores. Assim, tratar cada um deles como “homem boi” só o afasta do caminho da prosperidade.
Agora, vale alertar que existe uma conta na qual o mais é mais e, consequentemente, o menos é menos mesmo. Imagine a seguinte situação: você simplesmente reencontra sua esposa, noiva ou namorada, ou, então, sua mãe, sua filha ou outra pessoa por quem tenha grande estima. Vai economizar no beijo, no abraço, na sua manifestação de amor e de afeto? Vai demonstrar frieza ou indiferença? Se a sua resposta for positiva, bom, estou dispensado de esclarecer que o menos é menos, não é verdade? Do contrário, muitos pontos você estará acumulando em prol da felicidade pessoal. Claro, o importante é você ser sincero e, portanto, espontâneo em suas ações, mas não esqueça: para o mais ser mais, a vida clama por paixão, tesão, auto-realização e qualidade na aquisição de experiências. Não tenha medo de se entregar a essa causa para engordar a conta genuinamente transformadora.
As lacunas situadas no primeiro parágrafo do texto são, correta e respectivamente, preenchidas com: