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Quem foi Cleo de Galsan, a irmã de Pagu que defendia o futebol feminino
Anos antes de a irmã mais nova, Patricia Galvão, a Pagu, despontar como um dos símbolos do movimento modernista e entrar para a história, entre outras coisas, como a primeira presa política brasileira, Cleo de Galsan expunha sua opinião favorável ao direito das mulheres a qualquer tipo de prática esportiva, sobretudo aquela que já ganhava contornos de preferida da população.
Não há relatos de que ela tenha chutado uma bola na juventude dos seus 21 anos na região do Brás, em meados da segunda década do século XX, como fizeram contemporâneas suas no Rio e em São Paulo. Preferiu usar a escrita para fazer valer seus argumentos na imprensa diante de um sem-número de homens contrários à presença de mulheres nos gramados e quadras.
Ao ofício do magistério, uniu o de jornalista na seção esportiva do jornal A Gazeta entre os anos de 1924 e 1925, a convite do então noivo Leopoldo Santanna, com quem trabalhou na Escola Normal do Brás, e que era responsável pela editoria de esportes do diário.
Num dos poucos artigos próprios assinados com o pseudônimo (Seu primeiro nome era Conceição, Galsan é a junção de seu sobrenome — Galvão — com o de Leopoldo — Santanna), ela levanta a discussão da validade dos argumentos de médicos, jornalistas e até mesmo outros esportistas, no artigo “A mulher e o esporte — O futebol feminino é o jogo recomendado à mocidade feminina”, de 14 de abril de 1924.
“Quanto ao esporte a ser praticado pela mulher — segundo o conselho de um médico consciencioso e competente — ella pode escolher o que lhe parece melhor, de acordo com sua constituição physica, e também, logicamente, com seu gosto. A natação, aviação, athletismo, corrida rústica, futebol, entre outros, não destoam do sexo — e, uma vez praticados methodica e scientificamente, só podem contribuir para lhe fortalecer os orgams, embelezando-lhe as linhas da plástica”, escreve ela.
Cleo de Galsan vai além das críticas à sanha proibitiva de boa parte da sociedade (em 1941, o então presidente Getúlio Vargas assinaria um decreto-lei proibindo à prática de determinados esportes por mulheres, incluindo o futebol). Foi a primeira da família Galvão a questionar em seus artigos o movimento feminista no Brasil nos anos 20. Tradutora da revista francesa Très Sportive, também incluía seus comentários na versão publicada pela Gazeta.
“Neles, ela procura deixar claro que não se sente representada pelo movimento feminista brasileiro, no qual denuncia a frivolidade e o elitismo das seguidoras. Também acredita que as mulheres devem fugir do padrão lânguido, frágil. Seus corpos devem ser fortes, constituídos a partir de uma vida esportiva ativa. Para isso, devem ser livres para praticar o esporte que quiserem”, explica a doutora em antropologia social pela Universidade Federal de Santa Catarina, Caroline Soares de Almeida, que tem se debruçado sobre os artigos de Cleo de Galsan.
“Mulheres de verdade, formidáveis adversárias do sexo considerado forte, enérgicas batalhadoras pela igualdade de direitos, que saberão cumular, a par de seus ideaes políticos, o de ser mães robustas, sadias, fortes, capazes de crear filhos que sejam homens de valor”, diz trecho de outro artigo publicado pela Gazeta.
O vocábulo “sanha” (l. 25) poderia ser substituído corretamente, desconsiderando alterações de gênero, sem prejuízo da manutenção do significado original do texto, por: