///
Adoramos falar de eras. Nós, jornalistas, amamos anunciar o fim de uma era e o começo de outra. Como resistir ____ uma bela manchete? Garantimos que em 11 de setembro de 2001 havia acabado uma era. Já não lembramos qual. Afirmamos que o mundo nunca mais seria o mesmo depois daquele dia. Estranhamente, a cada manhã, ele se parece muito com o de sempre. Juramos que nada seria como antes depois da queda do muro de Berlim. Não foi mesmo, para os diretamente envolvidos. Para os demais, não é arriscado sublinhar que pouca coisa mudou. O mundo é resistente ____ mudanças. Muda devagar mesmo quando dá saltos. Somos os mesmos na diferença.
A internet faz o anúncio de uma nova era a cada 15 minutos. Quando surgiu um joguinho de avatar chamado Palace, nos anos 1990, declarou-se solenemente o começo de um novo tempo. Palace foi como veio: inesperadamente. Depois teve a era Second Life, uma espécie de brinquedo de casinha no universo virtual. Foi uma das coisas mais bizarras já inventadas pela alta tecnologia. Era o começo de uma nova era. Quem se lembra disso? Parece que existe um cemitério em ruínas dessa bobagem nos confins da internet. Agora estaríamos na era dos bitcoins. Será?
Também quero anunciar uma era. Sou como todo mundo: quero me projetar. Ainda que seja no vazio das previsões patéticas. Na minha robusta opinião entramos na Era das Certezas. Li muitas vezes um livro chamado “A era da incerteza”, de John Kenneth Galbraith. Nunca entendi a minha atração por essa obra. Creio que me apaixonei pelo título. Vejo-o bem posicionado ____ estante. Mas estou em nova era: saí da incerteza. O livro que fique no seu lugar. Pois bem, recuamos, para a Era da Certeza. Nunca tantos tiveram tantas certezas incompatíveis entre elas ao mesmo tempo. Nunca tantos, tão desinformados, apesar da fartura de informação, emitiram simultaneamente tantos juízos definitivos incongruentes. Nunca tantos julgaram tão rapidamente de modo categórico problemas tão complexos. Sócrates teria um único seguidor nas redes sociais: ele mesmo.
Na internet não existem dúvidas nem ignorantes. Todos são especialistas. Todos sabem tudo. Eu sei tudo na internet: basta entrar na rede que eu me transformo num gênio capaz de resolver todos os problemas do mundo e dar respostas para qualquer enigma. Outro dia, resolvi a questão da quadratura do círculo e defini quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete. Como sobrou tempo, construí um novo sistema eleitoral sem os defeitos de todos os modelos hoje praticados no mundo. Minhas soluções desapareceram como o Palace e o Second Life. Mas voltarão. Tenho certeza. É bom guardar o que estou dizendo. Entramos na Era da Certeza. Uma boa certeza só pode ser absoluta e carregada de ódio contra tudo o que ____ contraria. Uma certeza é sempre óbvia. Claro que a democratização da certeza enfurece as velhas oligarquias do saber, que controlavam a emissão.
A Era da Certeza tem uma característica fundamental: quando todos sabem tudo, ninguém sabe nada. É melhor ou pior do que antes quando as certezas de poucos ignoravam as dúvidas de muitos? A Era da Certeza não perde tempo com dúvidas metafísicas. O lema é “já Era”.
Assinale a alternativa correta sobre os recursos coesivos no texto.