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A mentirosa liberdade
01 Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em
02 prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se
03 fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não
04 estarmos bem enquadrados, medo de não sermos valorizados pela turma, medo de não sermos
05 suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participarmos da melhor balada, do clube mais
06 chique, de não termos feito a viagem certa nem possuirmos a tecnologia de ponta no celular.
07 Medo de não sermos livres.
08 Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em
09 liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que
10 chamo a síndrome do “ter de”. Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela
11 propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher
12 com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão
13 e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa
14 libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.
15 Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo
16 risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno,
17 valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira, ao longo
18 das paredes, temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens.
19 Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas, no atual endeusamento da
20 juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus
21 pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos, se temos 30; 40
22 anos, se temos 60; e 50, se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu
23 não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos
24 e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima
25 segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?
26 Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que
27 vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e
28 ainda não ficou? E ainda não bebeu? Ainda aguenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam
29 sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta
30 anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele
31 resort?
32 Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres
33 reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões
34 próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no
35 fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que
36 queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o
37 Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e
38 ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, um físico perfeito e uma grande fortuna. Sem
39 cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma
40 sociedade insegura, desorientada, em crise. Liberdade não vem de correr atrás de “deveres”
41 impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e
42 desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada
43 têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para
44 descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.
Conforme o texto, é correto afirmar que: