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O trem que naquela tarde de dezembro de 1909 trazia de volta a Santa Fé o dr. Rodrigo Terra Cambará passava agora, apitando, pela frente do cemitério da cidade. Com a cabeça para fora da janela, o rapaz olhava para aqueles velhos paredões, imaginando, entre emocionado e divertido, que os mortos, toda vez que ouviam o apito da locomotiva, corriam a espiar o trem por cima dos muros do cemitério. Imaginava que ali estavam sua mãe, o capitão Rodrigo, a velha Bibiana, outros parentes e amigos. Sorriam, e era-lhe agradável pensar que o saudavam: “Bem-vindo sejas, Rodrigo! Temos esperanças em ti!” Havia apenas um que não sorria. Era o Tito Chaves, que Rodrigo vira pela última vez estendido sem vida no barro da rua, na frente do Sobrado, o peito ensanguentado, os olhos vidrados. Corria à boca miúda que fora o coronel Trindade quem o mandara matar por questões de política, mas ninguém tinha coragem de dizer isso em voz alta. E agora ali estava Tito encarapitado no muro do cemitério, a bradar: “Vai e me vinga, Rodrigo. És moço, és culto, tens coragem e ideais! Em Santa Fé todo o mundo tem medo do coronel Trindade. Não há mais justiça. Não há mais liberdade. Vai e me vinga!” O trem ainda apitava tremulamente, como se estivesse chorando. Mas quem, enternecido, chorava de verdade era Rodrigo. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto, a que a poeira dava uma cor de tijolo. Maneco Vieira tocou o braço. “Que foi que houve, moço?”, perguntou, com um jeito protetor. Rodrigo levou o lenço aos olhos, dissimulando: “Esta maldita poeira...” No vagão agora os passageiros começavam a arrumar suas coisas, erguiam-se, baixavam as malas dos gabaritos, numa alegria alvoroçada de fim de viagem. Rodrigo foi até o lavatório, tirou o chapéu, lavou o rosto, enxugou com o lenço e por fim penteou-se com esmero. Observou, contrariado, que tinha os olhos injetados, o que lhe dava um ar de bêbedo ou libertino. Não queria logo de chegada causar má impressão aos que o esperavam. Piscou muitas vezes, revirou os olhos, umedeceu o lenço e tornou a passá-lo pelo rosto. Pôs a língua para fora e quedou-se por algum tempo a examiná-la. Ajeitou a gravata, tornou a botar o chapéu, recuou um passo, lançou um olhar demorado para o espelho e, satisfeito, voltou para seu lugar. Maneco Vieira sorriu, dizendo-lhe: “Enfim chegamos, com a graça de Deus... e do maquinista.” O trem diminuiu a marcha ao entrar nos subúrbios de Santa Fé. Rodrigo sentou-se de novo junto à janela e logo viu, surpreso, os casebres miseráveis do Purgatório e suas tortuosas ruas de terra vermelha. Aqueles ranchos de madeira apodrecida, cobertos de palha; aquela mistura desordenada e sórdida de molambos, panelas, gaiolas, gamelas, lixo; aquela confusão de cercas de taquara, becos, barrancos e quintais bravios – lembraram uma fotografia do reduto de Canudos que vira estampada numa revista. Na frente de algumas das choupanas viam-se mulheres – chinocas brancas, pretas, mulatas, cafuzas – a acenar para o trem; muitas delas tinham um filho pequeno nos braços e outro no ventre. Crianças seminuas e sujas brincavam na terra no meio de galinhas, cachorros e ossos de rês. Lá embaixo, no fundo dum barranco, corria o riacho, a cuja beira uma cabocla batia roupa numa tábua, com o vestido arregaçado acima dos joelhos. Em todas as caras Rodrigo vislumbrava algo de terroso e doentio, uma lividez encardida que a luz meridiana tornava ainda mais acentuada. “Quanta miséria!”, murmurou desolado.
Considere as afirmações abaixo, acerca dos estados e características de alma do personagem Rodrigo Cambará, tal como se apresentam no texto.
I. Quando chega a Santa Fé, e o trem passa pelo cemitério, está alegre e fica comovido.
II. É homem que possui autoestima, mas preocupa-se com o que se possa pensar dele.
III. Quando o trem passa pelos subúrbios de Santa Fé, fica abalado e triste.
Quais estão corretas?