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O homem indolor
Todo homem precisa de saúde. Consequentemente também de um alarme, se ela passa mal. O nome desse alarme é dor. Um homem, indolor por horas, foi inventado pela anestesia. Um outro, permanente, existiu antes e depois. Nascem humanos, por vezes incapazes de sentir dor. É doença, vantagem não é. Porque se concluiu: o alarme é indispensável, é preciso doer.
Também a sociedade precisa de saúde, de alarme se ela não vai bem. O nome desse alarme social é solidariedade, compromisso, sensibilidade ao sofrer alheio.
Também no social, estamos construindo o homem indolor. Esse animal vertical, que somos nós, por vezes escorrega e cai. Tomba na horizontal. O fato corriqueiro oscila do cômico ao trágico. Escorregou? Caiu? Não aconteceu nada? Nossa vontade é de rir.
O tombo foi grave? Derramou sangue? Quebrou ossos? Rir-se do trágico é ser brutal. Gosto das videocacetadas.
Mas, alguma vez, nelas o trágico expulsa o cômico. O touro levantou o homem nos chifres, o jogou no espaço como folha de papel. Caiu imóvel. Desmaiou ou morreu? A resposta é a gargalhada pré-gravada, coroando a cena.
A criança se arrebenta contra o muro. A motocicleta, sem controle, passa sobre o segundo, cai sobre o terceiro. Há fratura exposta, osso quebrado? A idosa escorregou na escada, desceu rolando. Cada degrau pareceu nova queda. Ficou imóvel, desmaiada. Há fratura exposta, osso quebrado? Ao final de cada cena, a TV nos ensina a gargalhar.
A criança está indo para o abismo. Está caindo, se levantando, caindo de novo. Não há ninguém para acudir? Há, sim, mas está filmando. Dá-lhe mais dinheiro continuar a filmar.
É a TV, construindo o homem indolor. É anestesia social, indiferença ao outro. Lembra coliseus do Império Romano onde a vítima era entregue às feras, sob aplausos da plateia. Dor social, essa nos toque também. Estamos educando gerações para o homem socialmente indolor.
O ponto alto do texto é marcado por uma imagem contundente da falta de sensibilidade social. Assinale-a: