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O dever da beleza
Não ser belo de acordo com os rigorosos padrões estéticos é motivo de culpa, como se vivêssemos em dívida com o nosso corpo. Quer custo emocional maior do que esse?
A moça, de rosto lavado e roupas confortáveis, ergueu um dos braços como se fosse uma Estátua da Liberdade. Logo se ouviu o zunzunzum ao redor. Cruzaram-se olhares incrédulos: ora, ela não se enxergava? A universitária, imediatamente isolada pelo gesto tão sincero quanto distraído, só tinha reagido ao chamado da professora Marle Alvarenga: “Levante a mão quem de vocês está completamente satisfeito com a imagem do seu corpo”. Pronto, pra quê! “Hoje, estar feliz com a própria imagem corporal é condenável, porque sempre tem algo para mudar e melhorar”, observa Marle, pós-doutora em Nutrição pela Universidade de São Paulo, onde leciona.
“É considerado absolutamente normal, nesses tempos doidos, todo mundo ser insatisfeito com a sua beleza e ponto. Um descontentamento normativo”, diz. Idealizadora do Instituto de Nutrição Comportamental, ela investiga há duas décadas transtornos alimentares, um dos problemas mais prevalentes entre aqueles que lidam mal com o que veem refletido no espelho e de mal a pior, muito pior, com o que sua mente guarda, fidedigno ou não, das formas, cores, texturas e tamanho do corpo, ou seja, a imagem corporal propriamente dita.
Essa imagem, dizem os especialistas, pode acabar distorcida por conceitos espalhados pela mídia (ah, a mídia…), comentários negativos vindos de qualquer direção, sexualização precoce, baixa autoestima e uma tendência a comparações sem fim. A figura usada como parâmetro sempre é o padrão vigente de beleza, claro. “Quando comecei a estudar essa área, o ideal era a mulher ser magra. Hoje, isso não basta. Ela deve ser magra e sarada”, diz Marle. Os homens, embora bem menos afetados por esses transtornos por razões culturais, não escapam: ser razoavelmente forte agora é para os fracos. Bonito mesmo, no caso especialmente dos mais jovens, é exibir músculos trincados, trincadíssimos. É, não está fácil… Mas o custo emocional da beleza não subiu porque ela se torna cada vez mais inatingível e, sim, muito pelo contrário, pela aparente convicção de que ela pode ser atingida. Isso faz toda a diferença no preço elevado que pagamos.
Assinale o trecho que contém uma ocorrência de linguagem informal.