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A antropóloga Paula Pinto e Silva explica como, na história do Brasil, a ideia de beleza variou de acordo com cada contexto histórico e os respectivos recortes sociais.
Além de sofrer transformações de acordo com os contextos culturais, geográficos e históricos em que é observado, o conceito de beleza é enunciado de maneiras diferentes conforme muda o lugar de onde se fala – um lugar demarcado pelo gênero, pela raça e pela classe social. O argumento é de Paula Pinto e Silva, doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, com uma pesquisa voltada para as relações entre consumo, alimentação e antropologia. “Achamos que a beleza é simplesmente um padrão físico, mas o que eu tento mostrar é que a gente tem a beleza como um caráter moral, depois como manejo e aprendizado de códigos sociais”, ela diz na entrevista que se segue, concedida em seu escritório no bairro de Perdizes, em São Paulo.
O conceito de beleza já passou por várias transformações ao longo do tempo. Que contornos ele adquire no século 21?
O conceito de beleza é histórico e é local. Não dá para falar “o conceito de beleza”, porque ele muda não só de acordo com a época, mas também com o lugar de onde estou falando. A gente deveria falar sobre o conceito de beleza sempre a partir de uma perspectiva antropológica, buscando as nuances desse conceito. Eu falo beleza e as pessoas entendem padrões, talvez os padrões disseminados por determinada mídia, por uma determinada moda, mas isto não é um conceito de beleza – de uma forma mais ampla, existencial, filosófica. Dessa perspectiva mais ampla, deveríamos pensar sim que ele é contextual.
Pode dar um exemplo?
Eu, mulher branca de classe alta e escolarizada, entendo o conceito de beleza a partir de uma perspectiva e entendo quais são os esforços que eu preciso ter para chegar ou dialogar com esse conceito. Mas eu, negra, mulher, da periferia etc., entendo uma coisa radicalmente diferente. E acho que, de forma geral, a gente não fala sobre isso. Quando falamos em conceito de beleza, falamos de padrão: o estabelecimento de algumas regras ou alguns standards que explicita para as pessoas, de uma forma muito genérica, o que no contexto se entende por beleza. Em um trabalho que fiz sobre a beleza no Brasil do século 17, discutia como ali já havia um ideal que nada tem a ver com corpo ou traços, mas com caráter. Quando falo em uma mulher bela no século 17, no Brasil, estou falando sobre construção de caráter, sobre uma possibilidade de criação de família, sobre o entendimento de normas sociais. Não estamos falando que ela tem cabelo comprido e liso, se ela tem bunda ou não. Este tipo de desconhecimento histórico e sociológico ainda é muito chocante.
Neste momento a ideia de beleza é basicamente feminina?
Sim, outra perspectiva que está atrelada ao conceito de beleza de uma forma mais ampla é que quem carrega a ideia de beleza é a mulher. Para o homem, temos outros atributos e outras possibilidades. É a mulher quem carrega essa coisa de ter um bom caráter – e o que é um bom caráter nos séculos 17 e 18? É saber obedecer às normas sociais e aceitar o lugar que lhe foi reservado – é ficar em casa, é cuidar de um contexto doméstico, é parir, e consequentemente saber educar seus filhos. No contexto do Brasil colônia, estamos falando obviamente de um primeiro olhar para mulheres indígenas e tudo aquilo que elas representam em termos de imaginário. De novo, quando eu falo que o conceito de beleza é histórico, local, datado e depende de onde se fala, a gente tem de pensar em quem está construindo essa história. Neste primeiro movimento, no Brasil colônia, que eu chamo de “mulheres reclusas” ou “beleza reclusa”, os relatos são construídos a partir de uma perspectiva masculina. E por muito tempo os relatos são construídos por homens, porque as mulheres não eram alfabetizadas e não eram elas que contavam a história – seja ela qual fosse, desde história botânica até a história oficial.
Assinale a alternativa em que a ideia expressa entre colchetes não está presente no respectivo trecho.